segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Estante de leitura – Irmão de Gelo

"Todos os meses, tudo o que não pudemos comprar e que não compraremos nos meses seguintes vai para algum lugar, ali por baixo do gelo. Os amores platónicos formam cristais e também ficam sepultados por baixo da neve. Estes desejos insatisfeitos quando são muitos, formam gretas que aparecem na testa. Às vezes o gelo faz-nos escorregar e cair em gretas mais profundas. Ao fim de muito tempo, o degelo pode fazer emergir tudo o que foi sepultado; como os manuais nas planícies siberianas no Verão, os restos estão húmidos e cheiram mal. Então já não os queremos. Pensamos que também não valia a pena. Que era deitar dinheiro fora ou que aquele amor pelo outro não era merecido.

Os desejos congelados de quando não se tem dinheiro ou não se é correspondido são diferentes daqueles que congelamos porque renunciamos a eles. Estes últimos têm o brilho de uma heroicidade estoica. Porém, se renunciamos aos desejos é porque temos medo e passámos a vida cegos, sem nada sentirmos ou vermos… Por outro lado, se lhes  obedecermos sempre podemos acabar perdidos. O que converte Ulisses em herói é que renuncia e não renuncia. É prudente sem se privar do desejo ao permitir-se ouvir o canto das sereias. (…)
Não sei se espere que a ferida cicatrize ou simplesmente tire umas férias mentais. Seria bom estar mais alegre.
No entanto, excluindo as patologias graves, tenho a sensação de que muitas pessoas tomam comprimidos para suportar situações das quais com frequência não são totalmente responsáveis ou, no mínimo, trata-se de uma responsabilidade coletiva, social. Como estar preso num emprego alienante do qual não se pode sair, ou num desemprego do qual não se pode sair, ou numa família da qual não se pode sair, ou num presente sem futuro, ou ter sido traído, ou despedido… Estes comprimidos que nos poupam a dor talvez também evitem o colapso do sistema. Evitam que as pessoas saiam à rua e peçam ajuda e exijam responsabilidades, que haja conflitos, mas também talvez soluções. Porque, a partir do momento em que pedimos aos outros que sorriam, que estejam alegres, que virem a página, que tomem comprimidos, que keep calm de merda, somos cúmplices da situação. Não os vou tomar. (…)
Como tornar visível o invisível é uma pergunta pouco frequente para um explorador e muito frequente para um artista. Que num dado momento da história toda uma nação tivesse de formular esta pergunta, é um marco para a arte. Os extremos entre os quais se criou esta imagem – o da terra, o do esforço, o do clima e o do invisível (branco) – sublinham pela via negativa a natureza profundamente fictícia do documento: gesto e paisagem são pura cenografia. Poderiam ter-se encontrado no jardim coberto de neve da sua casa. E é aí que subjaz o fascínio que sinto por esta imagem: documenta uma pura abstração, um lugar triplamente invisível – um ponto geográfico extremo baseado num cálculo – e outro que também não existe – a conquista de um lugar móvel – sobre um fundo branco, imperceptível do ponto de vista fotográfico. A capacidade de sintetizar estas diversas camadas de abstração num único nível é a essência do “tornar visível o invisível”. A conquista não é isso?
A arte não é isso?
Três amigos a brincarem num jardim coberto de neve.

Alicia Kopf, Irmão de Gelo. Lisboa: Penguin Random House, 2018.

Estante de leitura – Atlas

"Não há um só homem que não seja um descobridor. Começa por descobrir o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores cores do arco-íris e as vinte e tal letras do alfabeto; passa pelos rostos, os mapas, os animais e os astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da sua própria ignorância. (…) o achado dos sons, de idiomas, de crepúsculos, de cidades, de jardins e de pessoas, sempre diferentes e únicas. Estas páginas desejariam ser monumentos dessa longa aventura que continua.
(…)
O que é um atlas para nós, Borges?
Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos feitos da alma do mundo.
Antes de uma viagem, com os olhos fechados, com as mãos unidas, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as polpas dos nossos dedos adivinhassem o impossível, a aspereza das montanhas, a limpidez do mar, a mágica proteção das ilhas. A realidade era um palimpsesto da literatura, da arte e das recordações da nossa infância, tão semelhante na sua solidão.
Roma será para mim a sua voz recitando as elegias de Goethe, e Veneza será para si o que eu lhe transmiti num fim de tarde, em São Marcos, ao escutar um concerto. Paris será você em miúdo, teimoso, fechado num hotel a comer chocolates enquanto lia Hugo, a sua maneira de descobrir Paris; para mim, as nossas lágrimas quando vi no cimo da escadaria do Louvre a Vitória de Samotrácia, essa estátua sobre o qual o meu pai me ensinou a beleza. A beleza era a harmonia materializada, era ter conseguido o impossível, deter a brisa do mar no movimento das dobras da túnica para a eternidade. O deserto foi a batalha de Ondurmán e Lawrence e a música do silêncio, até àquela noite em que, junto às pirâmides, você me ofereceu um império de palavras, “modificou o deserto” e me revelou que a Lua era o meu espelho. (…)
O tempo era côncavo e protetor para nós, entrávamos nele como Ódin e Beppo, os nossos gatos, nos cestos e nos armários, com a mesma inocência e a mesma ávida curiosidade para descobrir mistérios."

                               Jorge Luís Borges. (2017). Atlas. Lisboa: Quetzal, páginas 7, 8, 113 e 114. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Estante de leitura – Criação (IX)

"Lavo as feridas com álcool. Ao balcão de um café de má fama, no coração movimentado da cidade. Paredes sujas. Ar rarefeito. Corpos pelo chão. Cheiro a gordura e a alho. Luz baixa. Murmúrios que também são silêncios. Uma televisão muda. Prateleiras de pó com garrafas para consumo no estabelecimento. Corpos no chão. Os corpos dos eus que me matei.

Sou um não abrigo. Já ninguém mora em mim. Sou agora um edifício devoluto. Portas e janelas vedadas com cimento. Ninguém mais entra. Não me crio mais ninguém. Tenho sangue nas mãos. Tenho sangue e cimento nas mãos.
A cidade invadida pelo motim das gentes de mim. Cruel e vil população. Monstro de mil cabeças e vontades. Ditando a revolta. Decretando liberdades. Impondo-me destruição. Se era para matar, matei. Venci. Extingui-me. Auto genocídio. Criei e matei em dias contados pelos dedos de duas mãos. Antes destruir-nos que ver-nos partir de mim.
Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir as vozes do contentamento. Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir a devastação. Cá dentro, no meu lado de dentro, já tenho a paz e o júbilo do meu próprio caos. Desfruto do prazer banal do vinho-sangue. A sede é um incêndio.
Abdico das minhas magras competências para deus. Não me servem as peles de herói. Não me servem as vestes de herói sensato. Esqueci-me do saber em alguma paisagem distante. A glória é um horizonte sem lugar.
O mais difícil sempre foi escolher o eu certo para o amanhã certo.
Quem deveria acordar no dia seguinte. Para não matar e para não morrer. O mais difícil foi acertar. Decidir sem culpas. Sem despistes. Manter a obediência às expectativas. Rodar o tambor, premir o gatinho e calhar na câmara vazia. Para não matar. Para não morrer.
Após a ambição. Após a descontrolada multiplicação. Após a metamorfose. Depois da urgência. Depois de amar. Depois dos sentidos em turbilhão. Depois de cair. Depois de criar raízes. Depois de arrancar raízes. Apenas o deixar de querer. Desapego. Tédio. Abandono. Amnésia.
Melhor não acordar no fim. Cumprir pena. Viver um sono eterno. Deixa-me ser aqui.
Melhor não acordar no fim."

Armanda Azevedo, “Dia 9 – Todos os dias seguintes”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – daniel-ablitt-heart-of-the-forest

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Estante de leitura – Criação (VIII)

"E ao oitavo dia…

A caneta tombou sobre o papel. Exausta. Inanimada.
Numa sala vazia, luz escassa, já não se ouvia o rogaçar da ponta da caneta no papel. Ela jaz ingloriamente na sombra projetada pelo meu corpo também ele inerte, esgotado, imenso. Nenhuma glória se alcança sem perdas.
Eu, num ser agora completo, tenho somente um mundo inteiro.
Um mundo inteiro, com cidades inteiras, com pessoas inteiras.
Peso o peso desse todo o mundo. Das cidades dos meus desacertos, das minhas hesitações, dos meus abandonos. Peso também o peso leve das cidades felizes. Das cidades dos meus feitos excelsos, dos gestos largos. Da cidade da partilha. Da cidade das coisas certas. Embora distantes, existem caminhos entre elas. Há rios. E onde há rios, tenho pontes entre elas.
Peso o peso dos meus habitantes. Dos que perderam e dos que ganharam. Todos os que nasceram dos meus atos mais ponderados ou dos meus atos mais irrefletidos.
Tenho dentro de mim todas essas cidades e pessoas. E moro em todas elas também. E sou todas elas e cada um dos seus lugares. Moro e sou cada um desses lugares que tenho em mim. E sou caminho e pontes entre elas.
Amei mais. E sou todos aqueles que amei. Amei menos. Morri-me em todos aqueles que esqueci.
E ao oitavo dia descansei. Do cansaço de ser eu, em tantos eus, em tantos dias. Em tantos sítios. Do cansaço de descobrir… de criar, de criar-me. De me descobrir. E continuar…
Agora vou ficar aqui. Fazendo sombra. Arrefecendo a terra quente onde repousa a minha caneta de escrever-me. Vou ficar-me a ouvir o mundo mover-se. Sem que o ruído do mundo a mover-se me incomode. Sem deixar-me estontecer pela rotação da terra sobre o seu próprio eixo.
Vou deixar-me apenas ser, deixando-me cegar pelo nascer do dia. Deixando-me esmagar pela noite quando cai. Ser feliz, sem enlouquecer pelo som da vida a gotejar em mim.
Para no fim não saber responder quem sou. Para responder apenas sou eu. Desconsiderando que sou apenas um mundo inteiro de mim. Pois esse meu mundo inteiro, mais não será que uma sala de espelhos. O mundo numa sala de espelhos gigante. Onde os reflexos refletem os seus reflexos. Misturam-se, repetem-se, formam-se e disformam-se até não se saber mais qual o espectro original. O meu ser primeiro. O eu que nasceu único e inocentemente feliz. Até se esquecer."

Armanda Azevedo, “Dia 8 – Descansar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – m-ban

sábado, 16 de junho de 2018

Estante de leitura – O céu que nos protege

"Quando abriu os olhos soube imediatamente onde se encontrava. Baixa, no céu, estava a lua. Embrulhou o casaco à volta das pernas e tremeu um pouco, sem pensar em nada. (…) A areia era suave, mas o frio penetrava através das roupas. Quando sentiu que não podia continuar a suportar os arrepios, arrastou-se para fora da árvore onde se abrigava e pôs-se a andar para trás e para diante em grandes passadas na esperança de se aquecer. O ar estava morto; nenhuma aragem, apenas o frio a crescer minuto a minuto. Começou a afastar-se para mais longe, mastigando pão enquanto caminhava. Sempre que regressava ao Tamariz sentia a sensação de deitar-se debaixo dos ramos e dormir. Todavia, quando surgiu a 1ª luz da alvorada estava completamente desperta e quente.

A paisagem do deserto é sempre mais bela na semi - claridade da aurora ou do crepúsculo. Não existe o sentido da distância: uma crista próxima pode ser a de uma montanha ao longe, cada pormenor, por mais pequeno que seja, pode adquirir a importância de uma variante maior sobre o repetitivo tema do campo.

A chegada do dia promete uma mudança; só quando o dia se abre completamente é que o observador suspeita que é o mesmo dia que regressa uma vez mais – o mesmo dia que há muito se vive, sempre e sempre, a mesma luz ofuscante e purificada pelo tempo. Kit respirou profundamente, olhou à volta para a linha suave das pequenas dunas, para a vasta e pura luz que se elevava atrás da orla mineral da hamada, para a floresta de palmeiras ainda imersa na noite, e soube que não era o mesmo dia. Mesmo quando se abriu completamente de luz, mesmo quando o sol imenso se ergueu e a areia, as árvores e o céu adquiriram gradualmente o seu aspecto habitual do dia, não teve dúvidas de que apesar de tudo isso, ali estava um novo dia, absolutamente único."

Paul Bowles. (2017). O céu que nos protege. Lisboa: Quetzal, páginas 279-280.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A gente se acostuma…

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colansanti, "Eu sei, mas não devia". Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1996. Imagem: © Luís Godinho 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Estante de leitura – Criação (VII)

  "Hoje persegui um telhado…. Hoje persegui um telhado…
  Queimava com o resto de um cigarro alguns pensamentos, daqueles que costumam doer e olhava o que existe do lado de fora da minha janela. Lá, rasgando a linha por cima de todas as coisas que meus olhos alcançavam, chamava-me especial atenção um telhado.
   Todos os telhados são telhados vermelhos, iguais aos desenhos que pintávamos, com lápis de cera. Pintávamos telhados vermelhos em folhas brancas assentes nas mesas gastas da escola primária. A folha ganhava o relevo da madeira velha, a madeira velha ganhava alguma cor vermelha do lápis de cera, a cera deixava nos dedos o cheiro igual ao da missa de domingo de manhã.
  Este telhado era um telhado cor de dia de chuva. Não havia nele o calor da recordação dos nossos desenhos de meninos.
  Este telhado apontava austeramente para o céu. Este telhado tinha janelas a toda a volta. Este telhado, certamente, era habitado por um qualquer ser que eu teria sido capaz de inventar com todos os pormenores e em toda a sua existência, aos meus primeiros anos de idade, quando ainda pintava telhados vermelhos na mesa gasta da escola primária.
   Os meus dedos hoje cheiram a cigarros fumados continuadamente.
Hoje eu já não sei qual o cheiro das missas ao domingo de manhã. Já não sei se há daquela brisa que nessas manhãs me tocava o rosto e me fazia sorrir, enquanto fazia todo o caminho com a minha mão apertada dentro da mão da minha mãe. Também já não sei se existem ruas iguais às ruas por onde caminhávamos. Nessas ruas, que começavam na porta de minha casa e iam para todos os lugares, cabia toda a minha curiosidade. E como eram longe todos os lugares e como proporcionavam aventuras sempre novas! Mesmo que o caminho demorasse apenas dois minutos.
   Desci as escadas e saí para a rua a partir da porta da minha casa de hoje. A rua que começa na porta da minha casa de hoje apenas vai dar a uma outra rua. As ruas hoje continuam grandes, não por terem capacidade de guardar a curiosidade de uma criança, mas simplesmente porque me cansam. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é medido em tempo. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é medido em passos. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é preenchido por aventuras. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é preenchido por pensamentos… daqueles que costumam doer."

  Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem: © – m-ban