terça-feira, 23 de julho de 2019
A leitura silenciosa (I)
domingo, 14 de julho de 2019
Estante de leitura – o nervo óptico
Não conheço ninguém que tenha querido ser escritor e não tenha dedicado alguma vez umas linhas ao mar. As que recordo sempre são, por qualquer misteriosa razão, todas de mulheres. Marguerite Duras: ”Não sei quase nada desde que cheguei ao mar.” Marina Tsvietáieva: “Não amo o mar, pois o mar não tem contraponto.” Sylvia Plath: “Arrastava o mar atrás de si como um obscuro crime.” (…) deixem-me contar-vos algumas coisas, aquilo a que se poderia chamar a minha história íntima com aquela porção de água.
O meu primeiro grande amor sucedeu na adolescência e à primeira vista: apaixonei-me por uma paisagem marinha pintada por Courbet. Depois, quando soube que havia outra ao alcance de uma viagem de autocarro e a visitei, a paixão só se intensificou. O quadro chama-se Mar Tempestuoso e está no Museu Nacional de Belas-Artes. Mer Orageuse, em francês, e o arranhar de garganta que provocam as consoantes replica o rugir das ondas. Em primeiro plano, uma onda carregada de espuma quebra-se de encontro às rochas; no horizonte, a água e o ar misturam-se; mais acima, o céu cobre-se de nuvens rosadas. É uma pintura a óleo realizada em 1869 e mede quase um metro por um metro, o tamanho certo para se pendurar por cima da lareira, se eu tivesse uma. Que lindo é ver arder um fofo debaixo daquele mar! De cada vez que olho para o Mar Tempestuoso algo se aperta dentro de mim, é uma sensação de obstrução entre o peito e a traqueia, como uma leve dentada. E respeito muito essa pontada, presto-lhe atenção, porque o meu corpo chega sempre a conclusões antes da minha mente.
Como pintor, Courbet era territorial, instintivo como um cão. Crescera perto da Cordilheira do Jura, numa zona chuvosa onde a água se infiltra na pedra calcária, nas escarpas, covas e vales, formando canais subterrâneos. O mar de Courbet encontra a sua textura nessa paisagem. A forma como o pintor usa a espátula é diabólica: passa uma escova de arame na tela, raspa o óleo como se quisesse marcar uma rocha. Mesmo com toda a sua pose e as suas tácticas para conquistar notoriedade, Courbet não deixa de regressar com frequência à região da sua infância. Pinta a água como um mineral fossilizado. uma malaquite partida ao meio. Penso no poder magnético que aquele quadro de Courbet exerce sobre mim. Há minerais que, ao serem expostos à luz ultravioleta, podem manter o seu fulgor durante dias; essa luminosidade que perdura chama-se fosforescência. O mar de Courbet fulgura na minha mente durante dias."
O Nervo Óptico / María Gainza. – 1ª ed. – Alfragide : D. Quixote, 2019. – 167, [1] p. ; 23 cm. – ISBN 978-972-20-6432-3
sábado, 13 de julho de 2019
Estante de leitura – O livro branco
Há momentos em que o passar do tempo é de uma nitidez intensa. A dor física aguça sempre a percepção (…) Inspiro fundo e, de cada vez que o faço, forma-se um novo momento da minha vida, tão nítido como um pingo de sangue sobre uma superfície branca. Mesmo quando consigo por fim regressar ao fluir dos dias, e a esse movimento em que se voltam a misturar ininterruptamente uns com os outros, aquela sensação continua presente, naquele sítio exato, de respiração suspensa e à espera.
Cada momento é um salto em frente, e impulsionamo-nos da beira de um penhasco invisível em direção aos contornos afiados dos dias, constantemente renovados. Levantamos os pés do terreno sólido que foi toda a vida que vivemos até ali e damos esse passo perigoso para o vazio. Não por qualquer ato de coragem em concreto, mas apenas porque não há outro caminho. Agora, neste preciso instante, sinto essa vibração vertiginosa a percorrer-me o corpo, o que coincide com o momento em que decido irrefletidamente avançar para um tempo que ainda não vivi, para este livro que ainda não está escrito."
O Livro Branco / Han Kang. – 1ª ed. – Alfragide : D. Quixote, 2019.
terça-feira, 9 de julho de 2019
Os perigos da leitura
Imagem: copyright: Jean-Honoré Fragonard, A leitor, c. 1776, National Gallery of Art, Washington.
Estante de leitura – Nem todas as baleias voam
A
flor é a dor da raiz, a luz, a dor das estrelas.” Acrescentou: “Homens de gosto
colecionam quadros ou estátuas, O meu amigo coleciona dor. Não em galerias ou
museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer.
Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a
no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar,
decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um
reagente que dissolve tudo: lágrimas.” Cabe-nos, ao aceitar as regras deste
jogo, uma espécie de exercício de mineração, trabalhar afanosamente e sem
tréguas na extração de virtudes de dentro de matéria vil. (…)
Até onde podemos esticar o amor? Até à pele do outro ou mais longe? Será possível que atravesse o tempo, o espaço, que voe por cima do deserto jordano e atravesse o Índico e suba o Hindukush e penetre na boca do Vesúvio, será possível que se estenda para lá da vida, que voe pelo cosmos como aqueles cometas solitários que deambulam milhões de anos numa solidão infinita e silenciosa? Talvez seja isso tudo, e mais ainda, talvez seja possível enfiá-lo numa garrafa e atirá-lo ao mar para que navegue até ao destino, que é a espinha do amor, que é o que o faz mover. O amor tem dentro dele uma direção, um sentido, uma enteléquia, um primo móbil. Seria expectável que, se Deus existisse, tivesse no início dos inícios criado o mar, tivesse bebido uma cerveja, tivesse escrito o Universo num bocadinho de papel, tivesse enfiado a mensagem na garrafa, tivesse atirado a garrafa ao mar, tivesse esperado que o amor concretizasse o Universo, a sua mensagem, enquanto fumava um cigarro no cais de Honfleur.
Nem todas as baleias voam / Afonso Cruz. – 1ª ed. – Lisboa : Companhia das Letras, 2016.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
O prazer da leitura (II)
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Estante de leitura – Princípio de Karenina
"A felicidade sempre foi um negócio e uma obsessão. Os filósofos, desde que existem, tentam mostrar-nos o caminho. Assim como os padres. E os monges. E os ditadores. (…) E os cientistas. E os nossos pais. Toda a gente quer encontrar a felicidade e, não sendo eles próprios felizes, pretendem enfiar a beatitude que não conquistaram pela goela dos outros. Quer um copo de água para empurrar? Pegam em discursos, em atos, em ramos de flores, em educação, em dinheiro, em poemas e canções e servem-nos o caminho para a felicidade.
Educam-nos com
histórias que terminam com o singelo “foram felizes para sempre”. E não me
refiro só à Bíblia, mas também aos contos e fadas e de príncipes e princesas. E
a obsessão é tão grande que até aos aleijados como eu lhes é servida a
esperança: o fantasma da ópera, o o corcunda de Notre-Dame, Cyrano de
Bergerac,a Bela e O Monstro, Pinóquio, o sapo. Haja esperança para todos,
incluindo batráquios que se tornam proeminentes membros da monarquia e se casam
e, como quem se constipa, ficam com aquela doença do peito, o amor eterno. É
que o amor corrige o mundo, mas também aleija muito. Nesse processo, há dor e
alegria, mas não o estado de euforia permanente. As pessoas felizes são as
pessoas que vivem a abanar a cauda. As pessoas felizes choram e temem e caem e
magoam-se e gritam e esfolam os joelhos, porque a sua felicidade independe
da roda da fortuna, do acaso, das circunstâncias.
Dito isto, e com a experiência e clarividência que fatalmente me contaminaram, sei exatamente qual é a fórmula da felicidade. Mas também sei que não adianta nada a ninguém. E basta olhar para o que acabei de escrever para encontrar a ignóbil contradição de estar vivo. Rejeito a felicidade para a poder conquistar. Abomino os negociantes de felicidade e tento, eu próprio, anunciar a sua fórmula. Como disse alguém: está consumado. Espero que aprendas a viver com as feridas que fazem de nós formas imperfeitas, famílias imperfeitas, diferentes, cada uma à sua maneira. Repara como é estranho, talvez belo, talvez perverso, que as nossas dores sejam eixos da memória e nos marquem indelevelmente, ao mesmo tempo que nos salvam a vida: assim como a minha deformidade me salvou da guerra, a minha morte salvou-te a vida. E, mais ainda, a minha morte salvou-me a vida.
Deformamo-nos uns aos outros. Como os dedos das mulheres no pátio da minha infância, os dedos dos pés encavalitados, moldados e seccionados uns pelos outros. Essas diferenças, essas máculas, essa carne amolgada podem não ser felicidade total, absoluta e perfeita. mas são uma riqueza muito maior do que ser um quadrado, perfeito na sua imobilidade e ausência de devir. Essas máculas são muitas vezes o resultado de um abraço demasiado apertado, de uma mão no bolso, de uma pequena mentira, de uma zanga entre amigos. Eu e tu deformámo-nos um ao outro para sempre, ou assim espero, na minha ingenuidade. Assim como a minha mãe me amava apesar da minha deformidade e, em certo sentido, amava a minha deformidade, porque me amava na minha diferença, também sei que me levantarás. Todos os anjos caídos serão levantados. A minha mãe foi perfeitamente capaz disso, com o seu sorriso virado para o teto. Sei que tu também o farás, olhar-te-ás ao espelho e passarás as mãos delicadamente pelas tuas dores e ficarás grata por elas. Jamais abdicarás de as ter: as imperfeições da felicidade, da infelicidade, dos círculos, dos desiquilibristas, dos dedos das mulheres do pátio da minha infância."
Princípio de Karenina / Afonso Cruz. – 1ª ed. – Lisboa : Companhia das Letras, 2018.






