sábado, 13 de julho de 2024

Estante de leitura – o olho e o espírito

 “A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Para si estabelece modelos internos das coisas e, operando sobre estes índices ou variáveis, as transformações permitidas pela sua definição só se confrontam de quando em quando com o mundo atual. Ela é, sempre foi, esse pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, essa opção de tratar qualquer ser como “objeto em geral», ou seja, ao mesmo tempo como se não fosse nada e se encontrasse, no entanto predestinado para os nossos artifícios

É necessário que o pensamento da ciência – pensamento de sobrevoo, pensamento do objeto em geral – se coloque de novo num aí prévio, in locus, sobre o solo do mundo sensível e do mundo trabalhado. Tal como existe na nossa vida, para o nosso corpo, não esse corpo possível em relação ao qual é permitido defender que se trata de uma máquina de informações, mas este corpo atual que eu chamo meu, a sentinela que se mantém silenciosamente sob as minhas palavras e os meus atos. É necessário que, com o meu corpo, despertem os corpos associados, os «outros», que não são meus congéneres, como diz a zoologia, mas que me assombram, que eu assombro, com os quais comungo um ser único atual, presente, como nunca nenhum animal assombrou os da sua espécie, do seu território, ou do seu meio. Nesta historicidade primordial, o pensamento apressado e improvisador da ciência aprenderá a aprofundar-se nas coisas enquanto tais e em si mesmo, tornar-se-á de novo filosofia…
Ora a arte e especialmente a pintura bebem nessa camada de sentido bruto da qual o ativismo nada quer saber. Elas são mesmo as únicas a fazê-lo em toda a inocência. (…) Ao escritor, ao filósofo, pede-se conselho ou opinião, não se admite que tenham o mundo em suspenso, exige-se que tomem posição, não podem declinar as responsabilidades do homem falante. O pintor é o único a ter o direito do olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação. Dir-se-ia que perante ele as palavras de ordem do conhecimento e da ação perdem a sua virtude. (…) Ele [o pintor] aí está, forte ou fraco na vida, mas incontestavelmente soberano na sua ruminação do mundo, sem outra «técnica» senão a criada pelos seus olhos e pelas suas mãos à força de ver, à força de pintar, obstinado a tirar deste mundo, onde soam os escândalos e as glórias da história, telas que nada acrescentarão às cóleras e às esperanças dos homens e ninguém se queixa. Que ciência secreta é esta que ele possui ou procura? Esta dimensão segundo a qual Van Gogh quer ir «mais longe»? Este fundamental da pintura, e talvez de toda a cultura.”

O olho e o espírito / Merleu-Ponty. Pontinha: Vega; Imagem: “Senecio” / Paul Klee, 1922.



segunda-feira, 6 de novembro de 2023


"Iremos juntos pela praia
Embalados no dia
Colhendo algas rochas e corais
Que na praia deixou a maré cheia

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e de conhecimento (1)

Sophia foi, é alguém que é uma fonte de inspiração para nos fazer entrar num mundo, um reino muito especial. O reino de palavras, de ideias tecidas na procura de uma claridade, de uma luz que antecedam as sombras do mundo. As palavras como ferramenta para conhecer a claridade da azul-respiração das coisas, entre o vento e o mar, na construção de um cosmos que emerge do caos e nos dá o essencial da essência humana.

Sophia é uma das grandes figuras da literatura portuguesa dos últimos cem anos. Sophia de Mello Breyner Andresen, que fez da sua vida um encantamento por esse amor antigo e futuro de todas as ideias, concedeu-nos as palavras da pura claridade, o dia inicial criado do caos para nos harmonizar com o real. Sophia é um nome, uma paisagem, uma forma de olhar que tem inspirado sucessivas gerações a descobrir no real, uma forma de divindade por onde a sua palavra respira assombrada pela sua essência de simplicidade. Deu-nos uma respiração de coral e nela vemos a tão difícil, mas tão necessária, dimensão da autenticidade nos gestos e nas palavras.

 As palavras são, em Sophia, não uma descrição planeada ou imaginada do real, mas sim a descrição do olhar, o concreto onde sobressai a nossa dimensão humana. Com a sua arte poética e narrativa, temos uma escrita muito preocupada com os limites da existência humana, de onde emerge em simplicidade um encontro com a Natureza e em especial com o mar. Encontros de natureza diversa, de onde emergem os gregos e a sua aventura pelo conhecimento da inteligibilidade do mundo, os seus mitos. Por esse mar de casas brancas, onde o sonho, a descoberta de novos horizontes, o puro descobrimento, na ideia grega (altheia) de dar ao real um significado divino.

Sophia deu-nos uma obra literária marcada pela poesia, pelos contos, onde fez nascer um imaginário de conhecimento das imagens que nos levam ao real, à procura de uma essência do humano.

Da sua obra, destacam-se a poesia, como forma primeira de uma expressão da palavra, na respiração do mundo, e os contos, em que muito do seu imaginário foi levado a crianças mais jovens. Na poesia, publicou diversos títulos, como, No tempo dividido, Coral, Navegações, Ilhas, O nome das coisas, onde o deslumbramento pela palavra, a extrema sensibilidade e clareza tentam encontrar campos e horizontes de felicidade, numa procura de uma dimensão humana que se pretende afirmar acima de qualquer tempo.  

A luz que ela nos deu é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não numa dimensão política, da usura de títulos, mas a de uma nobreza feita da que procura dialogar consigo própria, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido de possibilidades que o real nos concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, de quem se espanta pelo assombro do mundo, pela sua beleza e injustiça, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos pode fazer herdeiros da maior inteireza possível. 

Sophia, viveu ela própria o sonho, aspirou por ele, lutou por ele, sonhou com esse dia novo, com essa construção substantiva do tempo, das ideias nobres, simples, da reconquista apenas por si, pelo movimento, pela graça, retirando as máscaras e desbravando no caos, a pureza inicial do homem. Sonhou com esse movimento de levitação, o sonho que uma “revolução” permitiria. Não a de ideias passadas, de caminhos de glória, mas a escrita no coração, a partir da página em branco, onde cada respiração e olhar vê o dia e o mar em absoluto maravilhamento.

 Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que nós também sentíssemos a questão inicial, o sopro vivo da palavra comprometida. Infelizmente, nós não a compreendemos e temos muitos exemplos desta destruição pelo valor da palavra, onde a construção de uma comunidade se vê isolada da sua substância mais vital. Resta-nos com ela absorver o seu maior legado. O coração e as palavras que são sempre novas todos os dias, pois elas procuram construir um equilíbrio. 

Um equilíbrio que se sobreponha aos labirintos e ao caos, desvendando as sombras que no real nos afastam da essência. Palavras, como instrumentos para podermos abordar os dias, reconquistando um real a esse caos, tantas vezes usado e criado por desleixo e falta de vontade humana. Sophia abriu as palavras e com elas a realidade a nós, abrindo o Pórtico que ilumina cada homem que recebe esse bem sagrado que é a vida. As suas palavras são uma permanente iluminação, por onde se busca a mais perfeita claridade. Sophia criou um reino, uma linguagem que se exprime na sua Poesia, como uma forma de tornar possível, de fazer nascer um real onde se fragmentam os nossos passos de sol.

 (1) - Andresen, S. de M. B. ( ....) No tempo dividido. Alfragide: Caminho. 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Estante de leitura - Emily Dickinson


“Não sou Ninguém! Quem és tu?
És um – ninguém – Também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! não vão eles – contar!

Que horror – o ser – Alguém!
Que vulgar – como a rã –
Passar o Junho todo – a anunciar o seu nome –
No charco de pasmar!” (1)

“Se eu já não estiver viva
Quando os Piscos voltarem,
Deem ao do Peitilho de Sangue
Uma migalha por minha Memória.

E se eu não vos puder agradecer
Por estar já tão adormecida,
Sabei que ainda assim o estou tentando
Com lábio de Granito!” (2)

“Hei-de sempre cantar!
Por mim passarão pássaros
A caminho de Climas mais de Sol –
Cada um – com seu anseio de Pisco –
Eu – com o meu Peito-Ruivo –
E o meu Rimar –

Mais tarde – quando ocupar o meu lugar no Verão –
Hei - de trazer muito mais cheio tom –
As Vésperas – mais doces que as Matinas – Senhor –
Só da Tarde a semente – é a Manhã – (3)

(1) “I’m nobody! Who are you?”; (2) – “If I shouldn’ t be alive”; (3) – I shall keep singing!”

in Duzentos Poemas / Emily Dickinson. Lisboa: Relógio D´Água, 2014. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Estante de leitura – As Sibilas – Diálogos em Sfumato

 Um livro nasce dum desejo profundo de relacionamento com aqueles que nos são caros.” Agustina Bessa-Luís, “Os Incuráveis: Revelação e Criação”, conferência, 15.03.1984.

Entre laranjeiras e roseiras, entre a manhã, a tarde e a noite, e um fundo de esmerados cultivos, deu-se um grande combate, um combate que mais parece um exercício de esgrima e não de morte. Cada dia da nossa vida é assim, uma batalha em três andamentos: o acordar, na sua luz branca – das interrogações; caminha-se para a tarde, na sua luz quente-os cães ladram, as vozes alteram-se, passa o carteiro; e depois o fim do dia, o fim do combate – rodam-se os anéis encravados nos dedos inchados, fecham-se as portadas à lua de prata, às vezes um relâmpago ao longe, e adormece-se, talvez. E tudo é nada.
A poesia das paisagens, é a sua história que a alimenta. Há, no entanto, tempos de pousio, uma espécie de morte, de cansaço da natureza. Uma espécie de vingança daqueles que já não as percorrem, e as apagam, até um dia, em que a nova geração as redesenhe e ocupe. Será outra coisa. Ou a mesma, porque a natureza não tem imaginação, nem os homens. (…)
Eram seus encontros, os pássaros saltitantes de galho em galho; as galinhas assustadiças nos quinteiros isolados; o som dos cantares longínquos, e interrompidos, das moças nos tanques-lavadouros; o sino do Mosteiro ou da Igreja do Salvador de Real; o cruzar-se com este e aquele, que paravam a contar os desaires dos negócios e da vida. Agustina aprendeu a ouvir e a falar com todas estas criaturas que faziam parte da Natureza, e que contavam os dias pela sua justa medida de tempo. Sábio ensinamento, esse, que ela levou no seu coração, que é a nossa máquina perfeita, de medir o tempo.
Os veios de água que desciam das minas até ao caminho formavam pequenas pias de agrieiras.
As descrições de lugares e de paisagens, depois, nos seus romances, podem ser destacadas como poemas intemporais, com uma raiz longínqua nos poetas da Antiguidade.
D. Amelinha entrava na feira discretamente e dirigia-se aos feirantes do ouro. Aí, meio encoberta por uma manta suspensa do toldo, sentava-se num banquinho e apreciava, escolhia, negociava, os brincos com turquesas, os cordões de cinco voltas, os anéis de desenho antiquíssimo, onde se vincavam símbolos dos quais se perdera já o significado. Mas lá estavam.
Hoje, imagino esse cenário, num filme de Kurosawa! As mesmas figuras, esfumadas na paisagem; os mesmos gestos repetidos, baloiçados, na rotina diária; o mesmo movimento secular, entre o nascimento e a morte. Tudo era um sonho. Como se à volta da vessada se perfilassem os espíritos do milheiral, encarnados em bonecos de corda, os contadores da história daquela mulher franzina, de olhos amendoados e semicerrados, e de tantos saberes e incumbências.
E a pequena Agustina captava esse sonho, entrava nele, e aprendia as artes.
Ah!… A Sibila é um sonho contado.”

“Às vezes sentava-me no degrau da cozinha, e pensava que não podia haver pacto com os outros, mas sim a renúncia da nossa presença; o auge da despedida” (Agustina, “poema pessoal” (1967), Ensaios e Artigos, 2017).

As Sibilas – Diálogos em Sfumato / Mónica Baldaque. Lisboa. Relógio D` Água, 2022.

sábado, 17 de setembro de 2022

Estante de leitura – Clarissa

“Sentado no banco do jardim, Amaro lê os seus poetas.

As folhas da árvore que lhe dá sombra, desenham arabescos móveis nas páginas do livro.

O jardim é uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, com uma folha de papel de seda levada. pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa se despetala lentamente e as pétalas rolam para o chão. Há pelos canteiros, verdes de todos os matizes. As glicínias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insetos minúsculos de asas coloridas.

Amaro fecha o livro e olha o jardim. Porque será que lhe vem à memória a imagem de Clarissa? Clarissa é parte integrante deste jardim florido e luminosos, Clarissa é como a relva veludosa, como as glicínias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia, menina e moça – olhos abertos para o mistério da vida, alma que amanhece.

Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele – insensato – pensava que a vida estava só nos livros…

Agora é tarde. tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete.

A hora rútila de Clarissa passará também. Amanhã ela se fará mulher de todo. Professora, irá para a sua cidade natal, onde decerto casará com o filho dum fazendeiro rico. Serão muito felizes, terão muitos pimpolhos gordos. Clarissa ganhará fatas carnes, ficará como a tia, será uma esplêndida dona de casa, que há-de saber fazer gostosos doces, e queijos e bolinhos…

Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Põe-se a caminhar dum lado para o outro, mãos às costas, o pensamento solto…

Clarissa! Agora ela é poesia, ingenuidade, ternura, incompreensão, encantamento… Para ela a vida está cheia de surpresas e de atrações irresistíveis. Mas amanhã que virá? Amanhã? A dissolução, a deformidade do corpo e do espírito. Hoje – a menina verde, fresca, risonha. Amanhã – a mulher gorda, senhora respeitável que sabe em que mês devemos plantar couves, que não acredita “nessas bobagens dos poetas”, e que nem sequer há - de saber ensinar aos filhos a mentira bonita dos contos de fadas. Dir-lhes-á com uma voz árida:

– As fadas não existem, nem as varinhas de condão.

Os poetas só dizem mentiras. Vocês devem mas é aprender as quatro estações, a curar bicheira e a dar banho de carrapaticida no gado. Isso é que vocês devem aprender, para juntar dinheiro, povoar a fazenda, comprar mais campo e ganhar prestígio político….

Amaro procura apagar o pensamento mau.

Agora compreende mais que nunca que só na arte a beleza é imortal. Canta-lhe na cabeça o verso de Keats:

A thing of beauty is a joy for ever.

Na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça.

Senta-se de novo, mais sereno.

Mas o momento luminoso de Clarissa ainda não passou. Ela vive aqui na pensão, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente….

E ele a poderá contemplar da sombra… Inspirado em Clarissa, há-de compor ainda muitas músicas frescas e alegres. A canção do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moça. Uma “suite” de cor e movimento que há-de se chamar: “Clarissa amanhece”.

Há-de compô-la em segredo, muito em segredo. Ninguém ficará sabendo.

E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim….”

A thing of beauty is a joy for ever.

Clarissa / Erico Veríssimo. São Paulo: Companhias das Letras, 2005.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Estante de leitura – O Mundo de Ontem

“Criados no silêncio, no resguardo, na calma,
Lançam-nos então ao mundo, de repente; Banham-nos em cem mil vagas.

Tudo nos interessa, muito nos agrada,
Oscila a lama em leve agitação;
Sentimos, e o que temos sentido,
É levado pela corrente
Do colorido turbilhão do mundo.” (Goethe)

“Era tocante a confiança de cercar a vida com uma paliçada sem a menor brecha, evitando assim qualquer golpe do destino, enfermava, apesar de toda a solidez e humildade da conceção de vida, de uma grande e perigosa presunção. No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao “melhor de todos os mundos”. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras, fomes e revoltas, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. agora, porém, era apenas uma questão de décadas até terem sido definitivamente ultrapassados os últimos vestígios do mal e da violência, e a crença no “progresso” ininterrupto, imparável, tinha para essa época a força de uma verdadeira religião; (…)

Hoje é fácil para nós, que há muito tempo riscámos a palavra “segurança” do nosso vocabulário, como sendo uma mera ilusão, sorrir perante a loucura otimista daquela geração cega pelo idealismo e para a qual o progresso da humanidade deveria ter como consequência necessária uma evolução moral igualmente rápida. Nós, que neste novo século [XX] aprendemos a já não nos surpreendermos com nenhuma erupção de bestialidade coletiva, nós, que a cada novo dia esperávamos perversidades ainda maiores do que as doa dia anterior, somos marcadamente mais céticos no respeitante à capacidade de educação do ser humano. Tivemos de dar razão a Freud que via a nossa cultura, a nossa civilização, apenas como uma fina camada em risco de poder ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Tivemos de nos habituar gradualmente a viver sem chão debaixo dos pés, sem justiça, sem liberdade, sem segurança. Há muito que recusámos, na nossa própria existência, a religião dos nossos pais, a sua crença numa elevação rápida e constante da humanidade; a nós, que cruelmente fomos ensinados, parece-nos banal esse otimismo precipitado perante uma catástrofe que, de uma assentada, nos faz recuar mil anos para lá de todos os avanços da humanidade. Mas mesmo sendo apenas só loucura aquela que nossos pais serviram, nem por isso deixou de ser maravilhosa e nobre, mais humana e mais fecunda do que as palavras de ordem de hoje (…) e consola-me a confiança, herdade de meus pais, de que, algum dia, esta recaída parecerá ter sido apenas um intervalo no eterno ritmo do avanço contínuo. (…)
Quando hoje penso nele [Rainer Maria Rilke], e em cada um dos m

estres que cinzelaram a palavra com uma sublime peça artística de ourivesaria, quando penso nesses nomes venerados que iluminaram a minha juventude como constelações inacessíveis, sou irresistivelmente assaltado pela pergunta nostálgica: será que tais poetas puros, exclusivamente dedicados às formas líricas, voltarão a ser possíveis na nossa época de turbulência e de perturbação geral.(…) aqueles poetas que nada cobiçavam da vida exterior, nem a simpatia das grandes massas, nem condecorações, ou dignidades, ou lucro, que a nada mais aspiravam do que a unir de forma perfeita estrofe com estrofe, num esforço silencioso, porém apaixonado, cada verso impregnado de música, luminoso nas cores, resplandecente de imagens? Eles constituíam uma guilda, uma ordem quase monástica no seio dos nossos ruidosos dias, eles, deliberadamente de costas voltadas para o quotidiano, eles, para quem nada no universo era mais importante do que o doce som que, apesar de tudo, conseguia sobreviver ao fragor da época, logo que uma rima, ajustando-se a outra, extravasava aquela emoção indescritível, mais leve do que o som de uma folha rodopiando ao vento e, contudo, capaz de tocar as almas mais distantes com as suas vibrações.

Mas como era enaltecedora para nós, jovens poetas, a presença desses homens fiéis a si próprios, como eram modelares estes servidores austeros e guardiões da língua, que só á palavra purificadora concediam o seu amor, à palavra que não tinha a ver com o tempo nem com o jornal, e sim com a durabilidade e com a perenidade (…) ; será que tais almas ainda serão possíveis nos tempo que correm, nas nossas formas de vida que expulsam criminosamente as pessoas do seu recolhimento interior como um incêndio florestal escorraça os animais dos seus esconderijos mais ocultos? (…)

Era sempre a mesma, a eterna corja de todos os tempos que chamava cobardes aos cautelosos, fracos aos mais humanos, e que depois ficava sem saber o que fazer na hora da catástrofe provocada pela sua imprudência. Era sempre a mesma corja, a mesma que escarneceu de Cassandra, em Troia, de Jeremias, em Jerusalém, e nunca consegui compreender tão bem o carácter trágico e a grandeza dessas figuras como nestas horas tão semelhantes às que elas viveram (…) fez com que muitas vezes me questionasse se não seria eu próprio o louco no meio de toda aquela gente com juízo, ou talvez apenas terrivelmente lúcido no meio da sua embriaguez. Sentia-me constantemente tentado a mostrar o endurecimento interior que qualquer forma de poder provoca no indivíduo, o empedernimento de ala que qualquer vitória provoca em povos inteiros, e a contrapor-lhes a força tumultuosa da derrota que rasga na alma dolorosos e terríveis sulcos. Em plena guerra, enquanto os outros, prematuramente triunfantes, ainda demonstravam uns aos outros a infalibilidade da vitória, já eu me lançava no abismo mais profundo da catástrofe e procurava o caminho ascencional. 

(…) quase parece vingança maldosa da natureza, que todas as conquistas da técnica, graças às quais o ser humano concentrou nas suas mãos os seus mais misteriosos poderes, lhe tenham destruído simultaneamente a alma. Não há pior maldição que a técnica tenha lançado sobre nós do que a de impedir a nossa fuga do presente, ainda que só por um instante. Em períodos de catástrofe, as gerações que nos precederam podiam refugiar-se na solidão e no isolamento; a nós, estava-nos reservado ter de saber e de sentir, na precisa hora e no preciso segundo, tudo o que acontece de mal em qualquer ponto do nosso globo; (…) em 1938 a consciência mundial ficou calada ou limitou-se a resmungar um pouco antes de esquecer e de perdoar. (…)

E eu sabia: de novo o passado se ia, de novo ficava reduzido a nada o que fora construído. (…) O sol brilhava em toda a sua força e plenitude. Ao regressar a casa, reparei de repente na minha própria sombra que me precedia, tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente. Durante todo este tempo, ela nunca mais saiu do meu lado, aquela sombra, pairando, dia e noite, sobre cada um dos meus pensamentos; talvez os seus escuros contornos apareçam também em algumas destas páginas. Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, (…) a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”

O Mundo de Ontem – recordações de um europeu / Stefan Zweig. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Estante de leitura – O perfume das flores à noite

 “Nessa noite, quando chego a casa, já estou arrependida da minha decisão. Como se ficar fechada durante uma noite fosse resolver os meus problemas de criatividade. Procuro na minha biblioteca livros sobre a Dogana da Mar ou sobre Veneza. Tenho alguns guias, desprovidos de interesse salvo pela indicação de restaurantes baratos e do funcionamento do vaporetto.

De uma estante tiro um exemplar de Venices de Paul Morand. Abro-o ao acaso e dou com este parágrafo: “Escaparia. Não sabia a quê, mas sentia que o sentido da minha vida se viraria para fora, para outros lados, para a luz. […] Ao mesmo tempo, começou este batimento de um pêndulo que nunca mais me deixou, um gosto, sem dúvida pré-natal, de constrição, a felicidade de viver num quarto exíguo contrariada pela embriaguez do deserto, do mar, das estepes. Eu odiava as cercas, as portas; fronteiras e muralhas ofendiam-me.” Foi assim que também eu sempre vivi. Nesta oscilação entre o chamariz do exterior e a segurança do interior, entre o desejo de conhecer e de me dar a conhecer e a tentação de me concentrar inteiramente na minha vida interior. Toda a minha existência foi atormentada por este conflito entre o desejo de ficar sossegada no meu quarto e a vontade, perpétua, de me divertir, de me roçar nos outros, de me esquecer. Tenho ao mesmo tempo o desejo de me disciplinar, de ficar tranquila e o de me arrancar à minha condição, à minha origem, e de conquistar, pelo movimento, a minha liberdade. Vivo neste desconforto constante: medo dos outros e atração por eles, austeridade e mundanidade, sombra e luz, humildade e ambição.
Por vezes digo-me que, se não falasse com ninguém, se guardasse para mim todos os meus pensamentos, eles não assumiriam a banalidade que lhes descubro quando os partilho com outrem. A conversa é o inimigo do escritor. É preciso ficarmos calados, refugiarmo-nos num silêncio obstinado e profundo. Se me impusesse um mutismo absoluto, poderia cultivar metáforas e e arroubos poéticos como se cultivam flores em estufas. Se me tornasse eremita, veria coisas que a vida mundana me impede de ver, escutaria ruídos que o quotidiano que o quotidiano e a voz dos outros acabam sempre por encobrir. Quando vivemos no mundo, parece-me que os nossos segredos azedam, que os nossos tesouros interiores se embotam, que arruinamos qualquer coisa que, guardada em segredo, poderia ter sido a matéria de um romance. O mundo exterior age sobre os nossos pensamentos como o ar sobre os afrescos murais que Fellini filma em Roma e que se desvanecem no exato momento em que apanham luz. Como se o excesso de atenção, o excesso de luz, em vez de preservar, levasse à destruição da nossa noite interior. (…)
O que não dizemos pertence-nos para sempre. Escrever é jogar com o silêncio, é dizer, de maneira indireta, segredos que na vida real seriam indizíveis. A literatura é uma arte de contenção. Contemo-nos como primeiros momentos do amor, quando nos vêm à mente expressões banais, declarações inflamadas, que nos forçamos a omitir para não estragar a beleza do momento. A literatura consiste numa erótica do silêncio. O que conta é o que não se diz. Em boa verdade, talvez seja a nossa época, e não apenas o meu ofício de escritora, que me impele a desejar a solidão e a calma. Pergunto-me o que teria pensado Stefan Sweig desta sociedade obcecada com a ostentação do eu e com a encenação da própria existência. Desta época em que qualquer tomada de posição nos expõe à violência e ao ódio, em que se espera que o artista esteja de acordo com a opinião pública. Em que se escreve, sob o domínio de uma pulsão, cento e quarenta caracteres. Em O Mundo de Ontem, Sweig faz um retrato cheio de admiração do poeta Rainer Maria Rilke. Pergunta-se aí que lugar reservará o futuro a escritores como ele, que fizeram da literatura uma vocação existencial. Pergunta Sweig: “Não será também exatamente assim esta nossa época, que não permite o silêncio nem mesmo ao que é mais puro, ao que está mais isolado, o silêncio da espera e do amadurecimento, da reflexão e do recolhimento?” (…)
Agora, sozinha e descalça neste museu, pergunto-me porque queria tanto ser fechada aqui. Como pode a feminista, a militante, a escritora que aspiro a ser fantasiar com quatro paredes e uma porta bem trancada? Deveria querer quebrar as jaulas, soprar contra as muralhas até elas estremecerem e caírem. Escrever não pode consistir apenas em retirarmo-nos, em comprazermo-nos com o calor de um apartamento, em construir paredes de tijolo para nos protegermos do mundo lá fora e para não olharmos os outros nos olhos. É também alimentar sonhos de expansão, de conquista, de conhecimento do mundo, do Outro, do desconhecido. Atrás de uma fortaleza, o que poderemos nós cultivar senão a indiferença? estar em paz é uma fantasia egoísta. (…)
Veneza é uma cidade sem terra e sem outra riqueza além do sal. É alimentada pelo que vem de fora, do exterior, do estrangeiro. Vejo nisso o símbolo da minha própria história. É talvez aí que vivo, num lugar que se parece com esta península pontiaguda. Numa alfândega, que é por essência um lugar paradoxal. Nunca abandonei de facto o meu lugar de partida nem habitei de facto no meu lugar de chegada. Estou em trânsito. Vivo num entremundo.”

O perfume das flores à noite / Leïla Slimani. Lisboa: Penguin Random House, 2022.