segunda-feira, 25 de julho de 2022

Estante de leitura – O perfume das flores à noite

 “Nessa noite, quando chego a casa, já estou arrependida da minha decisão. Como se ficar fechada durante uma noite fosse resolver os meus problemas de criatividade. Procuro na minha biblioteca livros sobre a Dogana da Mar ou sobre Veneza. Tenho alguns guias, desprovidos de interesse salvo pela indicação de restaurantes baratos e do funcionamento do vaporetto.

De uma estante tiro um exemplar de Venices de Paul Morand. Abro-o ao acaso e dou com este parágrafo: “Escaparia. Não sabia a quê, mas sentia que o sentido da minha vida se viraria para fora, para outros lados, para a luz. […] Ao mesmo tempo, começou este batimento de um pêndulo que nunca mais me deixou, um gosto, sem dúvida pré-natal, de constrição, a felicidade de viver num quarto exíguo contrariada pela embriaguez do deserto, do mar, das estepes. Eu odiava as cercas, as portas; fronteiras e muralhas ofendiam-me.” Foi assim que também eu sempre vivi. Nesta oscilação entre o chamariz do exterior e a segurança do interior, entre o desejo de conhecer e de me dar a conhecer e a tentação de me concentrar inteiramente na minha vida interior. Toda a minha existência foi atormentada por este conflito entre o desejo de ficar sossegada no meu quarto e a vontade, perpétua, de me divertir, de me roçar nos outros, de me esquecer. Tenho ao mesmo tempo o desejo de me disciplinar, de ficar tranquila e o de me arrancar à minha condição, à minha origem, e de conquistar, pelo movimento, a minha liberdade. Vivo neste desconforto constante: medo dos outros e atração por eles, austeridade e mundanidade, sombra e luz, humildade e ambição.
Por vezes digo-me que, se não falasse com ninguém, se guardasse para mim todos os meus pensamentos, eles não assumiriam a banalidade que lhes descubro quando os partilho com outrem. A conversa é o inimigo do escritor. É preciso ficarmos calados, refugiarmo-nos num silêncio obstinado e profundo. Se me impusesse um mutismo absoluto, poderia cultivar metáforas e e arroubos poéticos como se cultivam flores em estufas. Se me tornasse eremita, veria coisas que a vida mundana me impede de ver, escutaria ruídos que o quotidiano que o quotidiano e a voz dos outros acabam sempre por encobrir. Quando vivemos no mundo, parece-me que os nossos segredos azedam, que os nossos tesouros interiores se embotam, que arruinamos qualquer coisa que, guardada em segredo, poderia ter sido a matéria de um romance. O mundo exterior age sobre os nossos pensamentos como o ar sobre os afrescos murais que Fellini filma em Roma e que se desvanecem no exato momento em que apanham luz. Como se o excesso de atenção, o excesso de luz, em vez de preservar, levasse à destruição da nossa noite interior. (…)
O que não dizemos pertence-nos para sempre. Escrever é jogar com o silêncio, é dizer, de maneira indireta, segredos que na vida real seriam indizíveis. A literatura é uma arte de contenção. Contemo-nos como primeiros momentos do amor, quando nos vêm à mente expressões banais, declarações inflamadas, que nos forçamos a omitir para não estragar a beleza do momento. A literatura consiste numa erótica do silêncio. O que conta é o que não se diz. Em boa verdade, talvez seja a nossa época, e não apenas o meu ofício de escritora, que me impele a desejar a solidão e a calma. Pergunto-me o que teria pensado Stefan Sweig desta sociedade obcecada com a ostentação do eu e com a encenação da própria existência. Desta época em que qualquer tomada de posição nos expõe à violência e ao ódio, em que se espera que o artista esteja de acordo com a opinião pública. Em que se escreve, sob o domínio de uma pulsão, cento e quarenta caracteres. Em O Mundo de Ontem, Sweig faz um retrato cheio de admiração do poeta Rainer Maria Rilke. Pergunta-se aí que lugar reservará o futuro a escritores como ele, que fizeram da literatura uma vocação existencial. Pergunta Sweig: “Não será também exatamente assim esta nossa época, que não permite o silêncio nem mesmo ao que é mais puro, ao que está mais isolado, o silêncio da espera e do amadurecimento, da reflexão e do recolhimento?” (…)
Agora, sozinha e descalça neste museu, pergunto-me porque queria tanto ser fechada aqui. Como pode a feminista, a militante, a escritora que aspiro a ser fantasiar com quatro paredes e uma porta bem trancada? Deveria querer quebrar as jaulas, soprar contra as muralhas até elas estremecerem e caírem. Escrever não pode consistir apenas em retirarmo-nos, em comprazermo-nos com o calor de um apartamento, em construir paredes de tijolo para nos protegermos do mundo lá fora e para não olharmos os outros nos olhos. É também alimentar sonhos de expansão, de conquista, de conhecimento do mundo, do Outro, do desconhecido. Atrás de uma fortaleza, o que poderemos nós cultivar senão a indiferença? estar em paz é uma fantasia egoísta. (…)
Veneza é uma cidade sem terra e sem outra riqueza além do sal. É alimentada pelo que vem de fora, do exterior, do estrangeiro. Vejo nisso o símbolo da minha própria história. É talvez aí que vivo, num lugar que se parece com esta península pontiaguda. Numa alfândega, que é por essência um lugar paradoxal. Nunca abandonei de facto o meu lugar de partida nem habitei de facto no meu lugar de chegada. Estou em trânsito. Vivo num entremundo.”

O perfume das flores à noite / Leïla Slimani. Lisboa: Penguin Random House, 2022.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Estante de leitura – A eloquência da sardinha

«A Leste, o sol queimava os olhos. No azul panorâmico das águas do lago, estendiam-se, de leste a oeste, extensas pinceladas de luz, dançando ao ritmo do suave marulhar. As sardinhas corriam velozes, dispersas na quietude da manhã, refastelando-se com plâncton. Por cima delas, réstias de céu flutuavam à superfície. O rosa pastel diluía-se no azul do dia.

Por baixo, as suas sombras, projetadas para oeste, mergulhavam nas profundezas ainda saturadas de noite.

À distância, os atuns vislumbraram estas sombras dançantes.
A aproximação dos atuns provocou um calafrio. Subitamente, todo o banco de sardinhas se agrupou, organizando-se numa massa compacta e assustada.
Tornar-se um espelho do mar. A sardinha sabia que esta era a única forma de se esquivar do olhar dos atuns. Fundir-se na paisagem, tornar-se um mero reflexo. Todo o banco tinha de adotar de forma sincronizada o mesmo ângulo, de forma a que as escamas prateadas refletissem o azul da água em todas as direções e que eles não as pudessem distinguir do vazio do oceano. Não podiam estremecer, nem permitir que uma nesga de céu se espelhasse na mais ínfima escama: uma partícula de luz poderia trair a sua presença. A sardinha mantinha-se imóvel, desaparecia juntamente com todo o seu banco, num frémito invisível.
Mas, entre os reflexos de mar da sua pele, começara já a desenhar-se num a legião de atuns, alinhados, coordenados e implacáveis. Tarde demais para ter ilusões. O olho triangular do atum já detetara o banco. A sardinha viu os vultos pretos e perfilados, de longas barbatanas, materializarem-se. De súbito, esses vultos mudaram simultaneamente de cor. Os atuns tinham iluminado as suas listas azuis fluorescentes, cujo comprimento de onda ultravioleta está precisamente calibrado para ofuscar os olhos das sardinhas. Deu-se um clarão estonteante.

O ataque dos atuns foi rápido e violento. (…) O banco não cedeu ao pânico. Ofuscadas, atordoadas, as sardinhas sabiam que a sua salvação dependia de se manterem agrupadas, à escuta umas das outras, organizadas, agindo em conjunto, como um só peixe. O grupo desenhava estranhos arabescos e volutas para desconcertar os atacantes, esquivava-se dos seus assaltos, separava-se para logo de seguida voltar a agrupar-se, tentando refletir os raios de sol em todas as direções, para os cegar.
Mas os atuns vinham de longe, tinham viajado noite e dia sem parar; a fome ameaçava-os. Mudaram de estratégia e empurraram a bola de sardinhas para a superfície, para esse muro de céu movediço intransponível. (…) A sardinha, isolada num dos lados, não conseguia juntar-se às outras. Visível e vulnerável, afastada da massa protetora das suas congéneres. A única hipóteses era nadar, sempre em frente.
Os milhares de escamas arrancadas brilhavam no azul como flocos de neve. A sardinha acelerava, com pavor de ser descoberta. No espelho prateado da sua pele, a cena do festim dos atuns foi ficando cada vez mais pequena. Quantas imagens refletidas naquele espelho! Todas essas cenas em que a sardinha se mantivera invisível, e cujas cores se imprimiram fielmente na sua pele. Nadando com todas as suas forças, a sardinha relembrava esses quadros reproduzidos nas suas escamas: as brincadeiras dos golfinhos, o casco dos navios, os rochedos de ilhas longínquas, as estranhas tartarugas do mar… tantos eram os segredos que levava consigo. Mas que iria acontecer a essas histórias? Ela era apenas uma sardinha solitária, muito vulnerável, praticamente condenada a dissolver-se no suco gástrico de um atum. Um pedaço tão ínfimo na cadeia alimentar, uma mera dentada para os predadores que encontraria pelo caminho. Que fazer para que esses relatos dos quais estava impregnada não se dissolvessem no turbilhão dos ciclos do oceano?

A sardinha nadou durante muito tempo, até perder a noção do tempo. Nem sequer reparou que a água à sua volta tinha mudado de cor e que as suas escamas já não refletiam o azul do largo, mas o verde dos herbários e o ocre dos rochedos. Esgotada, vacilou. Ondas desconcertantes empurravam-na para um elemento novo para ela: a terra. Ainda mal se tinha dado conta de que uma rede verde a recolhera do mar, viu-se mergulhada num balde de plástico, decorado com estrelas-do-ar. Foi então que se cruzou com um phar desconhecido, um olhar de criança. E, antes de voltar a partir, milagrosamente salva, rumo à liberdade e aos perigos do mar, decidiu transmitir-lhe algumas das suas histórias e convencê-la a fazer o mesmo.

(…) deixemos estas histórias embalar-nos e inspirar-nos a inventar e partilhar outras tantas. Pois o mundo do mar é como o das palavras: um espaço de liberdade, que deverá manter-se assim. Aqueles que querem refrear as palavras, impor regras à expressão e à linguagem são como aqueles que pretendem erguer barreiras no mar. O oceano é de todos e de ninguém. A imaginação também. Assim, quer sejam uma baleia solitária que fala a sua própria língua ou uma das anchovas coordenadas de um vasto branco; quer sejam um polvo inventivo, uma rémora pegajosa ou um discreto lavagante – cada um à sua maneira, entoemos livremente as nossas histórias.”

A eloquência da sardinha / Bill François. Lisboa: Quetzal, 2021.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Estante de leitura – Cinquenta palavras para Chuva

 «Acordo num jardim.

Alguém deve ter-me carregado até aqui. Consigo cheirar as flores antes mesmo de abrir os olhos. O cheiro de cada flor exótica enche todo o meu corpo. Estou cercada por ele.
Este não é o meu jardim.
Abro os olhos e vejo que é interminável, estende-se para lá do horizonte e até ao infinito. O céu é de um azul prussiano perfeito e as nuvens são gordas e cremosas, como se um pasteleiro as tivesse criado à mão. O sol é brando, banhando tudo com uma suave luz branca.
Sei que este não é um jardim comum. Também sei que estou destinada a estar aqui.
Levanto-me e ponho uma mão em pala sobre os olhos para os proteger da luz. Os cortes desapareceram, como se nunca tivessem existido. Curvo-me ligeiramente e puxo para cima a bainha do meu quimono, que é branco como o alabastro e feito da mais delicada seda. Está guarnecido com pérolas minúsculas e bordado com kiku no hana, crisântemos. Puxo-o até à cintura e passo com os dedos ao longo da pele macia do interior da minha coxa. A minha cicatriz também desapareceu.
Baixo a saia e começo a andar, não sei para onde, mas em frente. Caminho por baixo de árvores com ramos pesados com frutos maduros: romãs e maçãs, bananas e limas, ameixas e alperces, cerejas e frutos cujo nome desconheço. Há molhos de flores vermelhas por entre a erva alta, espalhados como fogos de artifício caídos. Curvo-me para apanhar uma rosa em rons de salmão.
O caule não tem espinhos.
Então, ouço qualquer coisa, um soim suave e perfeito. Não hesito e sigo-o. É como uma canção de sereia. Nunca consegui resistir a isso. Nunca o quereria fazer.
Não me pergunto para onde vou porque estou neste lugar, que obviamente não se destina a olhos mortais. Talvez eu esteja morta. Encosto as mãos à barriga magra e continuo a andar. Se estou morta, não posso dizer que me importo. Este lugar é… o paraíso. E nada me dói aqui. Toda a minha vida, carreguei uma dor abafada dentro de mim, tão constante que mal me apercebi.
Mas apercebo-me agora, porque desapareceu.
Ouço o ruído constante de um riacho murmurante algures nas proximidades, por baixo da canção. Começa a soar-me familiar. Dou por mim a caminhar um pouco mais depressa, numa tentativa de o apanhar. Conheço esta canção. De onde? Levanto a bainha da saia para andar mais depressa. Sinto o piso quente sob os meus pés descalços.
Onde é que eu já ouvi esta canção?
Está a ficar mais alta nos meus ouvidos e o som está a tornar-se mais rico, a lavar-me e a purificar-me de todas as dores que já senti. Agora estou a correr. Corro através de um bosque de árvores cujos ramos se juntam para formar uma auréola por cima da minha cabeça. Corro ao lado de um lago límpido com patinhos a salpicar. Corro até estar num prado com delfínios de um tom roxo profundo que me chegam até à cintura e papoilas vermelhas que parecem sorrir para mim. Faço uma pausa, o meu coração palpita no meu peito, os meus olhos vagueiam freneticamente para encontrar a fonte da música. Há uma árvore um pouco mais à frente. Viro o pescoço para ver melhor e percebo que é um pessegueiro.
Então, sei.
É a Ave Maria, de Schubert. É a minha primeira e única canção de embalar.”

Cinquenta palavras para chuva / Asha Lemmie. Lisboa: 20 | 20 Editora, 2021.

domingo, 19 de junho de 2022

Estante de leitura – Bom dia, Tristeza

«A este sentimento desconhecido, cujo tédio, cuja brandura me obsidiam, hesito em aplicar o nome, o belo e o grave nome de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta, que quase me envergonha, quando a tristeza sempre me pareceu honrosa. A ela, não conhecia, experimentava apenas o tédio, o arrependimento, mais raramente o remorso. Hoje, algo me envolve como seda, irritante e suave, isolando-me dos outros. (…)

E o tom de voz era tão convincente, tão meigo, que compreendi que ele poderia sentir-se infeliz. Pela noite dentro falámos do amor, das suas desventuras. Estas, aos olhos do meu pai, eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de gravidade, de compromisso. Explicava-me que eram arbitrárias, estéreis. Vindas de outra pessoa, tais afirmações ter-me-iam chocado. Mas eu sabia que no seu caso estavam presentes a ternura e a dedicação, sentimentos que manuseava tanto mais facilmente quanto os sabia, os queria provisórios. Esta conceção seduzia-me: amores breves, violentos e passageiros. Na minha idade, a fidelidade não cativava. Conhecia pouco do amor: encontros, beijos e desinteresse..” (…)
No dia seguinte de manhã, fui acordada por um raio de sol oblíquo e quente, que veio inundar a cama e pôr fim aos sonhos estranhos e um pouco confusos com que me debatia. Sonolenta, tentei afastar do rosto, com a mão, o calor insistente, mas acabei por desistir. Eram dez horas. Desci ao terraço, em pijama. Sentei-me tranquilamente num degrau da escada, com uma chávena de café e uma laranja e o sumo adocicado esguichava-me para a garganta, bebia um gole de café a escaldar e alternava este gesto com a frescura do fruto. O sol matinal aquecia-me o cabelo, desfazia as marcas que os lençóis me tinham deixado na pele. Já na praia avistei, no fundo do mar, uma linda rocha, cor-de-rosa e azul. Mergulhei, para a retirar, e guardei-a na palma da mão até ao almoço, muito lisa e gasta. Decidi que me daria felicidade, que a não abandonaria durante o Verão. Não sei porque a não perdi, já que perco tudo. Ainda hoje a tenho na mão, rosada e tépida. Sinto vontade de chorar. (…)
– Sim, custa-me muito – respondi [trocar a menina do pinhal pela de uma boa aluna]:
Disse – tão baixinho que eles não ouviram, ou não quiseram ouvir. No dia seguinte de manhã, dei comigo diante de uma frase de Bergson: precisei de alguns minutos para a compreender.: “Mesmo tendo em conta a heterogeneidade que possamos encontrar à partida entre os factos e a causa e embora não haja nenhuma regra de conduta para uma afirmação sobre o fundo das coisas, é sempre num contacto com o princípio gerador da espécie humana que sentimos crescer a força de amar a humanidade.” – Liberdade de pensar, de pensar mal e de pensar pouco, liberdade de escolher a minha própria vida, de me escolher a mim mesma. Não posso dizer “ser eu mesma”, pois mais não era do que uma pasta de moldar, mas apenas recusar os moldes.(…)
Só de madrugada, deitada na cama, ouvindo o ruído dos automóveis de Paris, a memória me trai, por vezes: revejo o Verão e todas as suas recordações. Anne, Anne! Repito esse nome, baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.”

Bom Dia, Tristeza / Françoise Sagan. Lisboa: Casa dos Ceifeiros: 2017

sábado, 4 de junho de 2022

Estante de leitura – Gente Independente

"Um pequeno riacho que nunca seca corre pelo curral abaixo, atrás do relvado, em semicírculo, límpido e frio. No Verão, os raios solares brincam na sua corrente alegre, e a ovelha está deitada mastigando nas margens com uma das patas dianteiras estendida em direção ao relvado. Em  momentos como este o céu fica azul. Então, brilhantes raios de sol cintilam no lago dos cisnes e no rio das trutas que corre serenamente pelo prado, e o brejo e o prado emitem uma alegria contínua e silenciosa.
O vale está rodeado por espinhaços e charnecas. No lado ocidental existe um estreito espinhaço, e a quinta que lhe fica mais próxima é Útiraudsmýri ou Mýri, a residência oficial do governador, a quem tem pertencido até agora este vale pantanoso. Mais adiante estendem-se terrenos vastos e povoados. Pela charneca ocidental, onde está talhado um caminho que vai dar à vila situada no fiorde, estima-se que a jornada dum bando de cavalos com carga levará cinco horas. A sul erguem-se do vale charnecas baixas e onduladas que se vão elevando até que as Montanhas Azuis encerram o horizonte, e é como se as montanhas de fundissem com o céu numa elevada iluminação, onde raramente a neve desaparece antes do solstício de Verão. E o que existe para além das Montanhas Azuis? A paisagem desértica do país.
E as brisas primaveris sopram pelo vale.
E quando as brisas primaveris sopram pelo vale, quando o sol da Primavera brilha na relva amarela das margens do rio, e no lago, e nos dos dois cisnes brancos deste lago, e incita a erva a brotar dos solos húmidos, quem havia de acreditar que este sereno vale verdejante englobasse a história das nossas vidas passadas e dos seus espectros? Pessoas andam a cavalo por ambas as margens do rio, onde durante séculos cavalos de tempos passados pisaram caminhos num terreno extenso, e com o sol a brilhar a brisa fresca da Primavera sopra pelo vale adentro. Nestes dias o sol é mais forte que o passado.
A nova geração esquece os fantasmas que possam ter atormentado os antepassados. (…)
Da montanha corria o riacho, que pertencia à quinta, em linha recta para o curral, depois virava para leste num semicírculo pelo monte, para poder seguir o seu percurso até ao prado. Havia duas quedas de água à altura dos joelhos e dois poços com a mesma profundidade. No fundo havia pedregulhos, seixos e areia. O riacho corria em várias curvas. Cada curva tinha um tom específico, mas em nenhuma havia um tom sombrio; era um riacho alegre e amante da música como a juventude, com várias cordas tocava os seus acordes sem se preocupar com audiências, e despreocupado mesmo se ninguém o tivesse ouvido durante cem anos, como o verdadeiro poeta. (…) o homem estava apenas repleto do espírito da modernidade e decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que ali se instalaram antes dele. (…)
Esses homens não tinham espírito de subserviência e não se viam como parte dum grupo. Viviam por sua própria conta, a independência era a sua mais-valia, eram homens de empreendimento individual e citavam as sagas e as rimas caso estivessem a beber aguardente. Eram homens de combate, perseverantes, que não tinham medo de enfrentar quaisquer adversidades físicas, nem mesmo a de passar fome com as suas famílias durante as derradeiras semanas de Inverno. Mas também não eram homens materialistas, desprovidos de espiritualidade, tinham Deus nas suas barrigas; antes sabiam de cor muitos versos livres e alguns exigiam invulgar habilidade para serem recitados, uns e outros até conseguiam improvisar quadras que falavam dos vizinhos, ou das dificuldades pessoais, ou dos perigos da vida, da natureza, ou da esperança de que melhores dias viriam no céu, e, sim, até sobre o amor. Bjartur fazia parte desses poetas."

                                  Halldór Laxness. (2013). Gente Independente. Lisboa: Cavalo de Ferro. 

sábado, 28 de maio de 2022

Estante de leitura – Uma semana nos rios Concord e Merrimack

“«Há uma voz interior, que no rio
Diz o que lhe vai na alma ao ouvido atento,
E corre com uma disposição tranquila,
Com o a sabedoria, acolhida pelo seu próprio respeito.
No seu seio repousa límpidos todos estes belos pensamentos,
Recebe as árvores verdes e airosas,
E as rochas cinzentas sorriem nos seus braços pacíficos.»

E o poema continuava, mas num tom demasiado sério para este livro. Para cada carvalho, e mesmo para cada bétula que se eleva no cume da colina, bem como para estes ulmeiros e salgueiros, sabíamos que existia uma árvores ideal, etérea e airosa, que cresce para baixo, e por vezes a natureza, quando a maré sobe, coloca o seu espelho a seus pés e torna-a visível. O silêncio era profundo e quase intencional, como se fosse um domingo natural, e gostávamos de imaginar que a manhã era o entardecer de um dia celestial. O ar era tão elástico e cristalino que tinha o mesmo efeito sobre a paisagem do que uma lente numa imagem: dar-lhe uma distância e uma perfeição ideais. a paisagem estava banhada numa luz suave e pacífica, em que os bosques e as vedações a reconfiguravam e a dividiam dando-lhe uma nova regularidade, e os campos acidentados estendiam-se a perder de vista com o aspeto liso de um relvado, enquanto as nuvens, pitorescas e recortadas com nitidez, pareciam um cortinado suspenso sobre um país encantado. Era como se o mundo estivesse enfeitado para qualquer festividade ou cerimónia, com fitas de seda a esvoaçar ao vento, e o trajeto das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho verdejante num labirinto rural, na estação em que as árvores de fruto estão em flor.
Por que razão a nossa vida e o cenário em que se desenrola não hão - de ser tão belos e nítidos? (…)
Embora as sombras das colinas começassem a invadir o rio, todo o vale ondulava com uma luz suave, mais pura e mais memorável do que ao meio-dia. Com efeito, é assim que o dia se despede mesmo nos vales isolados e desabitados. Duas garças-azuis-grandes, com as suas patas longas e esguias realçadas contra o céu, passaram alto sobre as nossas cabeças – o seu voo imponente e silencioso, ao crepúsculo, não parecia destinado a levá-las a pousar em qualquer pântano à superfície da Terra, mas, porventura, no outro lado da atmosfera, um símbolo para as gerações estudarem, quer esteja impresso no céu ou gravado entre os hieróglifos do Egito. Determinadas a atingir um prado a norte, mantinham o seu voo regular e majestoso, como as cegonhas nas ilustrações, até desaparecerem por trás das nuvens. Densos bandos de melros seguiam ao longo do curso do rio, como que numa curta peregrinação de final do dia a um dos seus santuários ou para celebrar aquele magnífico pôr-do-sol. Este supunha que todos os homens não tinham nada que fazer e eram de temperamento contemplativo.”

Uma semana nos rios Concord e Merrimack / Henry David Thoreau. Lisboa: Antígona, 2018. 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Estante de leitura – Sputnik, meu amor

“Cada um de nós possui qualquer coisa de especial, que se revela numa determinada altura da nossa vida, e só uma vez, como uma pequenina chama. As pessoas precavidas, abençoadas pela fortuna, conservam religiosamente essa chama, fazem-na crescer, usam-na como uma tocha que ilumina as suas vidas. Mas uma vez apagada, ela não voltará nunca mais a acender-se. Eu não me limitara a perder Sumire. Juntamente com ela, perdera também essa preciosa chama.

Amanhã meto-me no avião e regresso a Tóquio. As férias de Verão estão quase a acabar e voltarei a calcorrear os intermináveis caminhos do costume. É lá o meu lugar, é lá que estão o meu apartamento, a minha mesa de trabalho, a minha sala de aula, os meus alunos. Esperam-me dias tranquilos, romances por ler. Uma ou outra ligação esporádica.
Uma coisa é certa: não voltarei a ser o mesmo. A partir de amanhã, serei outra pessoa. Os que me rodeiam não se darão conta de que voltei ao Japão completamente diferente. Por fora, nada terá mudado, mas algo dentro de mim ficou reduzido a cinzas e deixou de existir. Houve sangue derramado e, dentro de mim, algo morreu. Desapareceu de vez, de cabeça baixa, sem uma palavra. Há uma porta que se abre e uma que se fecha. Apaga-se a luz. Para mim, tal como sou agora, hoje é o último dia. Este é o meu último entardecer. Quando o novo dia nascer, eu, tal, como sou agora, já não estarei aqui. Outra pessoa diferente habitará o meu corpo.
Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?.
Virei-me de costas sobre a laje de pedra, fitei o céu por cima de mim e pus-me a pensar na quantidade imensa de satélites que naquele preciso momento deviam girar à volta da Terra. No fio do horizonte era ainda possível distinguir uma réstia de luz, e as estrelas começavam a brilhar no céu de um profundo tom púrpura. Procurei com o olhar a luz de um satélite, mas havia demasiada claridade para distinguir fosse o que fosse a olho nu. As estrelas que estavam à vista permaneciam imóveis, cada uma no seu sítio, como se cravadas no céu. Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sptunik que continuavam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa. (…)
Fechei os olhos e esforcei-me por me lembrar do maior número possível de coisas belas que tinham desaparecido da minha vida. Esforcei-me por chamá-las a mim, retê-las entre as mãos, mesmo sabendo que a sua existência seria efémera. Sonho. Às vezes penso que é a única coisa que vale a pena. Sonhar, viver no mundo dos sonhos. Mas nunca dura muito tempo, a vigília acaba sempre por me trazer de novo a realidade. (…)
Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons bolorentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar para a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim.”

Sputnik, meu amor / Haruki Murakami. Lisboa: Cada das Letras, 2005.