sábado, 19 de setembro de 2020

Estante de leitura – Com Borges

«Naqueles tempos, eu não estava de modo algum ciente do privilégio. A minha tia, que o admirava imensamente, ficava um tanto escandalizada com a minha displicência e instava-me a tomar notas, a redigir um diário dos meus encontros. Mas, para mim, aqueles serões com Borges não eram (na arrogância da minha adolescência) nada de verdadeiramente extraordinário, não se me afiguravam alheios ao mundo dos livros que eu considerava meu. Se tanto, era a maioria das outras conversas que me parecia alheia, desinteressante: conversa com professores acerca de química e da geografia do Atlântico Sul, com os meus colegas acerca do futebol, com os meus familiares acerca das minhas notas nos exames e da minha saúde, com vizinhos acerca de outros vizinhos.

As conversas com Borges eram, pelo contrário, o que, na minha cabeça, as conversas deviam ser sempre: acerca de livros e acerca do mecanismo dos livros, acerca da descoberta de escritores que eu mesmo nunca lera, e acerca da descoberta de escritores que eu nunca lera, e acerca de ideias que não me tinham ocorrido, ou que só dera conta de maneira hesitante e semi-intuída e que, na voz de Borges, cintilavam e deslumbravam em todo o seu rico e de algum modo óbvio esplendor. Eu não tomava notas porque, naqueles serões, me sentia demasiado satisfeito.

Logo desde as minhas primeiras visitas, o aparecimento de Borges pareceu-me existir para lá do tempo, ou antes, num tempo constituído pelas experiências literárias dele, um templo composto ao ritmo da Inglaterra vitoriana e eduardiana, da Alta Idade Média dos países nórdicos, da Buenos Aires nas décadas de 1920 e 1930, da sua amada Genebra, da era do expressionismo alemão, dos odiosos anos de Péron, dos Verões em Madrid e Maiorca, dos meses passados na Universidade de Austin, no Texas, primeiro lugar onde conquistou a generosa admiração dos Estados Unidos. Eram pontos de referência, a sua história e a sua geografia: o presente raras vezes se interpunha. Para um homem que adorava viajar mas não podia ver os lugares que visitava ele parecia singularmente desinteressado pelo mundo físico, exceto quando representação das suas leituras. As areias do Sara ou a água do Nilo, a costa da Islândia, as ruínas da Grécia e de Roma, todas as quais tocou com regozijo e assombro, não fizeram senão confirmar a recordação de uma página d? As Mil e Uma Noites ou da Bíblia, da Saga de Njal ou de Homero e Virgílio. Borges trazia de volta ao apartamento todas essas “confirmações”.»

Com Borges / Alberto Manguel. Lisboa: Tinta da China, 2020

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Estante de leitura – Sem nunca chegar ao cimo

 «Sentei-me com as costas apoiadas num dos moinhos e observei o mosteiro. Mais acima, nas encostas arborizadas do monte Somdo, um rebanho de bharal ruminava ao sol. Nenhum leopardo à vista, mas o céu da tarde estava límpido e àquela altitude a luz possuía algo de absoluto, como se fosse luz no seu estado mais puro. E, de igual modo, o ar rarefeito que respirava, a água gelada que acariciava com a mão, a rocha aquecida pelo sol na qual estava apoiado. A essa pureza correspondia outra dentro de mim, era este o pensamento ao qual procurava dar forma: o vento, a torrente, a luz, a pedra eram feitos da mesma substância do meu sangue, das minhas fibras, dos meus órgãos, e ecoavam nestes assim como o tambor do monge tinha feito vibrar as minhas membranas: bum, bum, bum, eu sou feito disso, disto e disto. A montanha conduzia-me ao essencial.

Peter identificara a mesma sensação nas páginas mais explícitas do seu diário. No fundo, eu simplesmente reescrevia o que à sua época ele havia escrito, e no entanto parecia-me perfeitamente condizente com Shey: ali nada andava para a frente ou para trás, mas em círculos. segundo o preceito do eterno retorno, ou da eterna reescrita. E não era de todo um movimento ocioso. Para os tibetanos, o girar das rodas, o nosso andar às voltas em em redor de muros, mosteiros e montanhas ativa as rezas inscritas no seu interior, assim como o badalo que acaricia a borda do sino o faz vibrar produzindo uma nota. 

Tinha escutado em Catmandu o lá dos sinos tibetanos, capaz de ferver a água com a qual eram cheios. Se isto é verdadeiro, pensei, então de Shey parte uma única e potente nota para o universo: giravam os peregrinos em redor da Montanha de Cristal, girava o monge sorridente em redor do seu mosteiro, giravam os moinhos da farinha nas torrentes e giravam os pombos selvagens que revelavam, talvez, um celeiro escondido no gompa; giravam os escritores em redor do sentido de estarem ali.  Quem viu alguma vez o monte Kailash do cume inviolado da Montanha de Cristal? Fechei o caderno. Nesse mesmo momento, só que quarenta anos antes, Peter fechou também o seu, no qual havia escrito: ”O segredo das montanhas é que elas existem simplesmente, como eu. e existem com simplicidade, não como eu. As montanhas não têm significado, elas são significado; as montanhas são. Eu ecco de vida, assim como as montanhas, e quando consigo ouvi-lo esse é um som que partilhamos.”
Mensagens, correio electrónico, alertas, chamadas perdidas. Bem-vindos ao deserto do real, pensei eu. Reentrávamos na rede, no mundo, no tempo, e sentia que aquele mundo sem tempo, o chá do monge no eremitério debruçado sobre o abismo, O Leopardo dobrado e marcado dentro da minha mochila perdiam já o seu sentido. Quem é que alguma viu o monte Kailash do cimo inviolado da Montanha de Cristal? Agora este meu Koan era somente uma frase feita boa para figurar numa camisola para ser vendida nos mercados de Catmandu.

“A lucidez da vida em Shey diminui rapidamente”, anotava Peter durante o caminho de regresso. Contudo, logo a seguir reconhecia a necessidade da perda: “Também a transparência pode constituir um impedimento, se nos agarrarmos demasiado a ela. Não devemos demorar-nos na Montanha de Cristal.”
O derradeiro limiar foi uma árvore, um cedro-do-himalaia coberto de pó e enrugado. Desde o lago Phoksundo que não os via e fiquei de tal modo impressionado que parei para desenhá-lo. Enquanto fazia o seu retrato, apercebi-me de que por cima do cedro, por detrás do Dhaulagiri, tinham surgido nuvens. 

Nuvens! As nuvens e a árvore estavam ligadas entre si. Virei-me na direção da vertente na minha retaguarda, um salto de mais de mil metros que conduzia ao planalto. Já havia reparado nos barrancos de erva onde pastavam os carneiros-azuis. Os carneiros-azuis eram as sentinelas de Dolpa, o cedro e a nuvem, o seu derradeiro limiar. Lá em cima, em algum lado, estava o leopardo-das-neves, para me fazer recordar que nem tudo o que existe é visível aos olhos, que nem tudo é compreensível, que nem tudo podemos colher e levar conosco. “E neste não ver sou feliz”, escrevia Peter. Deixava para trás algo não visto e não tocado, mas tinha chegado tão próximo que podia sentir a sua presença. Eis o que se experimenta ao descer da montanha.»

Sem nunca chegar ao cimo, viagem aos Himalaias / Paolo Cognetti. Alfragide: D. Quixote, 2020.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Estante de leitura – Flecha

«one by one the guests arrive
the open-hearted many 

the broken hearted few 
the guests are coming through (Leonard Cohen, “The Guests”).

ressoou o arco, vibrou alto a corda, e apressou-se rápida
a flecha aguda, desejosa de voar por entre a multidão (Ilíada, canto IV, 125).

As histórias vêm antes da literatura. Antes da palavra escrita, dos símbolos, do papel impresso, até mesmo antes das tábuas, as narrativas já cá estavam. E enquanto a primeira história tem a idade do primeiro movimento do mundo, a primeira história partilhada só pode ser contemporânea do primeiro homem. Seja qual for o seu nome ou até a sua proveniência, o que importa é que com ele começam as narrativas. 

A partir da primeira experiência nasce a partilha, e da partilha nasce a comunidade. E embora seja impossível saber quando foi que o primeiro ser humano contou uma história a outro, supõe-se que a primeira troca de experiência tenha sido transmitida de maneira gestual. Um homem apontou ao outro um galho, uma corrente onde a água era mais fresca, ou até mesmo um animal ao longe. Com sorte, o primeiro gesto foi um toque – fazia frio no princípio do mundo, quem sabe se o homem inicial não colocou a mão sobre as costas do segundo homem para assim o proteger do vento. Logo depois, ou talvez antes, um apresentou ao outro o fogo.

Em volta do fogo sempre se contaram boas histórias. Basta que a labareda se levante para que o rol de narrativas comece a desenrolar-se. Mesmo sem palavras, o crepitar do lume já é só por si um contador de histórias. Imagine-se uma fogueira a arder sozinha, no mato, sem nenhum homem por testemunha: aquele ruído de madeira a queimar lenta, com os seus estalidos particulares, contém um dialeto específico, uma conversa, um linguajar antigo que vai contando as coisas devagar. Talvez seja por isso que, quando o homem se chega perto, acontece-lhe logo uma necessidade forte de dar continuidade à conversa. Perto do fogo as histórias nunca começam num ponto, elas apenas pegam num sinal qualquer que já lá estava. Junto ao fogo não há tempo, sem século, nem seque a hora fixa. Frente ao fogo, todos somos ouvintes.

Muito depois do átomo solitário a expandir-se, depois do levantar do fogo e das estrelas dissipadas, nasceu nalgum lugar um leito. Primeiro, quem sabe, feito de um molho de folhas estendidas no chão, ao relento. Mais tarde um tecido forte atado entre duas árvores, e mais tarde ainda a cama, construída a partir da madeira que um dia ardeu nas chamas, e que com certeza num outro dia voltará a arder. Sobre cada um desses leitos uma mulher ou um homem conta histórias. Por vezes um ao outro, outras vezes a si mesmos, em surdina. Ulisses regressa a Ítaca para se deitar na cama que ele mesmo esculpiu na oliveira, e só aí, em posição horizontal e de corpo despido, que Penélope o legitima por inteiro. Depois do reconhecimento, Ulisses baixa as armas e conta à sua mulher as peripécias da viagem.»

Flecha / Matilde Campilho. Lisboa: Tinta da China, 2020.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Estante de leitura – Manual de sobrevivência de um escritor

“Afinal as, as únicas coisas que valem a pena fazer-se
são aquelas que te podem partir o coração.” (Colum McCann)

Um escritor é, antes de mais (ou apesar de tudo), um observador estupefaco da disfunção humana ou da membrana de isolamento que existe entre si e o mundo, entre si e os outros, entre os outros e os outros. Perante esta “desaquaduação” das coisas a resposta humana tem sido, desde os primórdios daquilo que somos, a tentativa de controlar o caos e de o ordenar segundo um plano, enformado pela linguagem. Das pinturas rupestres à maravilhosa prosa de Faulkner, dos hieóroglifos egípcios ao assombro de Joyce em Finnegan’s Wake, tudo serviu para delimitar e conter a propensão da vida para a catarse, a dispersão. A  literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana. (…)
A escrita não é terapia – ou teria uma “função”, o que arruinaria a maravilhosa ideia de inutilidade hoje associada à  literatura ou às artes em geral. Durante séculos,a expressão artística esteve intimamente ligada ao útil, no sentido da construção e edificação do carácter e do espírito. Com a emergência do capitalismo, no século XX, o útil transformou-se num meio para chegar a um fim, e, portanto, a arte passou a estar ausente desta definição.
Graham Greene descreveu a escrita como “uma forma de terapia” e acrescentou: “Por vezes pergunto-me como é que todos aqueles que não escrevem, compõem ou pintam são capazes de fugir à loucura, à melancolia, ao pânico e ao medo que é inerente à condição humana.”
Green concorda com Byron quando ele disse: “Se não escrever para esvaziar a minha mente, enlouqueço”; e sem dúvida que Somerset Maugham concorda com ambos. N’O Véu pintado podemos ler: Tenho a ideia de que a única coisa que torna possível encarar este mundo em que vivemos sem desprezo é a beleza que, de vez em quando, os homens geram a partir do caos. As pinturas que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, e as vidas que vivem. De todos estes exemplos, o mais rico em beleza é a vida bela. É a  obra de arte perfeita.”
Claro que Maugham está a enganar subtilmente o leitor. A “vida bela” depende da quantidade de coisas belas que nela estão inscritas; além da beleza natural o belo surge no ato de criação e, portanto, depende desse gesto que fazemos ao tentar gerar sentido a partir do caos.
O sentido foge à literalidade das coisas.

Manual de sobrevivência de um escritor / João Tordo. Lisboa: Companhia das Letras: 2020.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Estante de leitura – A cidade das palavras

"A linguagem, como em tempo a conhecemos, não só nomeia, mas também dá existência à realidade: um ato conjuratório alcançado por intermédio das palavras e daqueles relatos dos acontecimentos da realidade a que chamamos histórias. 

As histórias, afirmou Döblin, são o nosso modo de registar a nossa experiência do mundo, de nós próprios, dos outros. As histórias destilam a nossa aprendizagem e conferem-lhe forma, narrativa, para que através de variações de tom e de estilo e de episódios consigamos não esquecer o que aprendemos.   
As histórias são a nossa memória, as bibliotecas são como que armazéns dessa memória, e a leitura é o labor através do qual podemos recriar essa mesma memória. Recitando-a e dando-lhe brilho, traduzindo-a para a nossa própria experiência, o que permite que nos ergamos sobre aquilo que  as gerações anteriores consideraram digno de preservação. (…) Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias desfrutar das experiências passadas de outros, como se fosse nossa. Em certas condições, as histórias podem ser-nos úteis. Por vezes podem curar-nos, iluminar-nos e mostrar-nos o caminho. Sobretudo, podem recordar-nos a nossa condição, romper a aparência superficial das coisas e fazer-nos tomar consciência das correntes e profundezas que lhe subjazem. As histórias podem alimentar a nossa consciência, o que pode conduzir à nossa faculdade de conhecer, se não quem somos, pelo menos que somos, uma percepção essencial que se desenvolve por meio do confronto com a voz de outrem.
Se ser é ser percepcionado, então, conhecer o que somos requer o conhecimento dos outros a quem percepcionamos e que nos percepcionam. Poucos métodos são tão adequados a esta tarefa de percepção mútua, como contar histórias.
Imaginar histórias, contar histórias, escrever histórias – tudo isso são artes complementares que emprestam palavras ao nosso sentido da realidade e podem servir de aprendizagem, transmissão de memória, instrução ou advertência. Em anglo-saxão arcaico a palavra “poeta” era “criador”, termo que alia o significado da tessitura das palavras ao da construção do mundo material. Adão, na Bíblia, ao nomear as coisas conferiu-lhes existência. “As nossas palavras, concedem-nos um lugar tanto no espaço, como no tempo.”
Os criadores dão forma às coisas, fazendo-as existir, atribuindo-lhes uma identidade intrínseca. Imóveis num canto das suas oficinas e no entanto errando nas correntes do rosto da humanidade, os criadores refletem o mundo nas suas rupturas e mutações constantes e espelham em si mesmos as formas instáveis da nossa sociedade, tornando-se “pára-raios celestiais” (Rubén Darío), ao perguntarem ininterruptamente “quem somos” e ao oferecerem o espectro de uma resposta nos termos da própria pergunta."

A cidade das palavras / Alberto Manguel ; trad. Maria de Fátima Carmo ; rev. Rita Almeida Simões. – 1ª ed. – Lisboa : Gradiva, 2011. – 158, [3] p. ; 23 cm. – (Trajectos ; 87). – Tít. orig.: The city of words. – Bibliografia, p. 143-150. – ISBN 978-989-616-430-0   

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Estante de leitura – O livro do silêncio

"São as primeiras horas do dia. É uma manhã de extraordinária radiância – por estranho que pareça, cá em cima praticamente não há vento. O silêncio é quase perfeito: alguns pássaros pequemos chilreiam de vez em quando e, há pouco, um par de corvos passou a esvoaçar, produzindo os seus habituais ruídos ásperos. É o primeiro dia de outubro, pelo que os maçaricos-reais e os ostraceiros já desceram até à linha costeira. (…) 

Estou sentada no degrau da frente da minha casinha, com uma chávena de café na mão, a olhar para baixo, para o vale, para a minha paisagem extraordinária de nada. É maravilhosa. (…) Na verdade, não é “nada” – são as formações das nuvens e os diferentes movimentos que o vento produz sobre os juncos, ervas, urze e fetos, além da mudança das cores, não apenas no decorrer do ano, mas ao longo do dia, enquanto o Sol e as nuvens se alternam e modificam -, mas, num outro sentido é o enorme nada que me atrai. Olho para ele e, como tenho menos coisas para observar, vejo melhor. Ouço o nada, e as suas melodias e ritmos silenciosos soam harmonicamente. A linha irregular do monte, com os postes de telégrafo e de eletricidade montados sobre ela, contém o silêncio, como se o encerrasse no interior de um recipiente, e abaixo de mim consigo ver umas faixas prateadas ocasionais e aparentemente desligadas, que constituem, de facto, o pequeno rio que serpenteia ao longo do vale.  
Há três minutos – é uma bênção, algo que não se pode pedir nem prever -, um milhafre passou em voo ao longo do regato, a não mais de vinte metros da porta. Não há muitas pessoas que tenham um milhafre no quintal, eles são relativamente raros na Grã-Bretanha, pois nas Terras Altas da Escócia vivem pouco mais de cem casais de milhafres. São aves ligeiramente mais pequenas e muito mais leves do que os bútios, e habitam em terrenos desolados. Os milhafres machos, se vistos a partir do solo, assemelham-se a fantasmas – completamente brancos, com excepção das cabeças cinzentas, mas têm as pontas das asas claramente negras. Caçam a baixa altitude e planam no ar, formando um V pouco acentuado com as asas; caçadores poderosos, belos, livres. Eles representam para mim o grande silêncio dos montes; eles acolheram-me nesse silêncio."

O livro do silêncio / Sara Maitland ; trad. Jorge Almeida e Pinho ; rev. Ayala Monteiro. – 1ª ed. – Alfragide : Estrela Polar, 2011. – 397, [3] p. ; 24 cm. – Tit. orig.: A book of Silence. – ISBN 978-989-8206-70-1

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Estante de leitura – Viagens

"Quando viajo, desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se estou já no ponto de chegada. Será que existe um “entre” as duas coisas? Ou serei eu como aquela noite recuperada quando se viaja para oeste? Será que sou regida por aquela lei que é o orgulho da Física Quântica – a partícula pode existir simultaneamente em dois lugares distintos? Ou talvez por outra lei, ainda desconhecida e por comprovar – a de poder não existir duplamente num mesmo lugar?

Penso que há muitas pessoas como eu. Desaparecidas, ausentes que, de repente, aparecem nos terminais dos aeroportos e só começam a existir quando os funcionários da alfândega lhe carimbam os passaportes ou quando um gentil recepcionista de hotel lhes entrega uma chave. Já devem ter descoberto a sua instabilidade e a sua dependência de lugares, horas do dia, línguas ou cidades e suas ambiências. Fluidez, mobilidade, ilusão – eis o que significava ser civilizado. Os bárbaros não viajam, dirigem-se diretamente para o destino ou, então, fazem incursões.

Assim pensa a mulher que me oferece um chá de plantas, guardado num termo, enquanto aguardamos o autocarro que nos leva da estação para o aeroporto. Tem, nas mãos pintadas com hena, um padrão complicado que se esbate a cada dia que passa. Quando nos sentamos, dá-me uma lição sobre a noção do tempo. Afirma que os povos sedentários, que se dedicam à agricultura, preferem os prazeres facultados pelo tempo circular, no seio do qual todos os acontecimentos retornam ao seu próprio princípio, enroscando-se para formar um embrião e repetir o processo de amadurecimento e de morte. Mas os nómadas e os mercadores, que se encontram constantemente em viagem, tiveram de inventar um tipo de tempo que melhor se adaptasse à sua condição de viajantes. Trata-se de um tempo linear, mais prático, que lhes permite medir a distância percorrida até alcançar o destino e a evolução dos proveitos obtidos. Cada momento é único e nunca se repete, o que favorece o risco, reforça o usufruto do presente e a fruição do momento. Mas, no fundo, trata-se de uma amarga descoberta – se a mudança no tempo se torna irreversível, a perda e o luto tornam-se algo quotidiano e, por tal razão, os seus lábios jamais dirão palavras como “esgotado” ou “inútil”.
– Esforços inúteis, contas bancárias esgotadas – ri-se a mulher, pondo as mãos pintadas atrás da cabeça.

Diz que a única maneira de sobreviver num tempo linear que se distende é conservando a distância, uma dança que consiste em aproximar-se e afastar-se, um passo para a frente e um passo para trás, um passo para a esquerda, outro para a direita – passo fáceis de decorar. E quanto maior o mundo se tornar maior será a distância que pode ser dançada desta maneira – emigrar para além de sete mares, para além de duas línguas e de uma religião.
Eu, porém, tenho uma opinião diferente sobre a noção de tempo. O tempo de todos os viajantes é constituído por muitos tempos reunidos num, uma multiplicidade de tempos. Há o tempo insular, arquipélagos da ordem, no oceano do caos; há o tempo produzido pelos relógios das estações de comboios, que é diferente consoante os lugares; há o tempo convencionado do meridiano e, por conseguinte, é bom que ninguém o leve muito a sério. Há as horas que desaparecem num avião em pleno voo, onde o amanhecer é repentino como um relâmpago e, logo, ameaçado pelo meio-dia e pelo anoitecer. Há o tempo caótico das grandes cidades onde permanecemos um momento para nos entregarmos à escravidão de um serão. E há o tempo preguiçoso das planícies desabitadas, vistas do alto de um avião.
Também acho que o mundo se encontra no interior de nós próprios."

Viagens / Olga Tokarczuk ; trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz ; rev. Raquel Lopes. – 1ª ed. – Amadora : Cavalo de Ferro, 2019. – 343, [4] p. : il. ; 24 cm. – ISBN 978-989-623-270-