quarta-feira, 13 de abril de 2022

Estante de leitura – O velho e o mar

«Sonhava apenas com lugares e os leões nas praias. Brincavam quais gatos pequenos no escuro, e gostava deles como gostava do rapaz. Com o rapaz nunca sonhava. Acordou, olhou pela porta para a Lua, desenrolou as calças e enfiou-as. Urinou fora da choupana e foi estrada acima para acordar o rapaz. Tiritava de frio da manhã. Mas sabia que tiritaria até aquecer e que daí a pouco estava a remar. (…)

No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trémulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas. gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à excepção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar.” (…)

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mar dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem, el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades, era porque não podia deixar de as fazer. “A Lua influi no mar como as mulheres”, pensava ele. (…)
As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azul-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase quase púrpura. ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o Sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do Sol nas águas, com o Sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de uma medusa flutuando junto do barco. Deitou-se se lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água. (…)

Já estava escuro, porque, em Setembro, escurece depressa, depois do sol-pôr. Encostado à madeira gasta, repousava quanto podia. as primeiras estrelas surgiam. Não sabia o nome da Rígel, mas via-a, e sabia que não tardariam a aparecer todas e que teria em breve todas as suas amigas distantes.
– Também o peixe é meu amigo – disse em voz alta. – Nunca vi nem ouvi falar de um peixe assim. Mas tenho de o matar. Agrada-me pensar que não temos de matar as estrelas.
“Ora imagina”, pensou, “que um homem devia todos os dias ver se matava a Lua. A lua foge. Mas imagina que um homem todos os dias teria de ver se matava o Sol? Nascemos com muita sorte.”
Sentiu depois pena do grande peixe, que nada tinha de comer, e a sua determinação em matá-lo não contrariava a pena que sentia. “A quantas pessoas dará de de comer?”, pensou. “Mas são elas dignas de o comer? Não, claro que não. Não há ninguém digno de o comer, tal é o seu comportamento, a sua grande dignidade.”

“Não compreendo estas coisas”, pensou. “Mas é bom que a gente não tenha de ver se mata o Sol, a Lua ou as estrelas. Basta vivermos no mar e matarmos os nosso verdadeiros irmãos.” (…)
Na treva, porém, sem clarão fulgindo, nem luzes, só com o vento e o firme impulso da vela, sentiu-se como se já estivesse morto. Juntou as mãos para sentir as palmas. Não estavam mortas, e era capaz de sentir a dor da vida, apenas com abri-las e fechá-las.”

O velho e o mar / Ernest Hemingway. Porto: Porto Editora: 2015

Estante de leitura – O coração é um caçador solitário

«Aproximou-se ainda mais do mudo e baixou a voz, num sussurro embriagado: – E porque será? Porque é que persiste este milagre da ignorância? Por causa de uma única coisa: conspiração. Uma conspiração pérfida e imensa. O obscurantismo. (…) Até que, por fim, o dilúvio de palavras ganhou forma e ele proferiu-as com uma êxtase embriagada: – As coisas que eles nos fizeram! As verdades que eles transformaram em mentiras. Os ideais que conspurcaram e destruíram. Jesus, por exemplo. Era um dos nossos. Ele sabia. Quando disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus… Ele sabia muito bem o que estava a dizer, com um raio! Olhe bem para o que a Igreja fez a Jesus nestes últimos dois mil anos. Naquilo em que o transformaram. A maneira como a Igreja manipulou todas as Suas palavras para o seu próprio proveito. Se ainda fosse vivo, Jesus estaria agora preso. Seria uma das poucas pessoas que sabem realmente. Eu e Jesus sentar-nos-íamos a uma mesa, olhar-nos-íamos nos olhos e ambos saberíamos. Eu, Jesus e Karl Marx podíamos sentar-nos a uma mesa e… (…)

O que é feito da nossa liberdade? Os homens que combateram na Revolução Americana têm tanto a ver com as Filhas da Revolução Americana como eu tenho a ver com um cão pequinês barrigudo e perfumado! Eles acreditavam no que diziam em relação à liberdade. Tomaram parte numa revolução a sério. Lutaram para que este fosse um país onde todos os homens pudessem ser livres e iguais. Ou seja, partiram do pressuposto de que todos os homens são iguais aos olhos da Natureza, que todos têm direito às mesmas oportunidades. Isso não significava que vinte por cento da população podia roubar os outros oitenta por cento dos seus meios de subsistência. Não significava que um homem rico podia explorar dez mil homens, por forma a ficar ainda mais rico. Não significava que os tiranos podiam fazer deste país o que lhes apetecesse, fazendo com que milhões de pessoas ficassem dispostas a tudo, incluindo roubar, mentir e arrancar o braço direito, para poderem trabalhar e comer três refeições por dia. Transformaram a palavra “liberdade” numa blasfémia, ouviu?! Transformaram a palavra “liberdade” num monte de lixo! (…) Nada havia mudado realmente. A tão falada greve nunca chegou a acontecer porque as pessoas foram incapazes de se aliarem. Tal como antes. O Sunny Dixie Show continuava a funcionar, até nas noites mais geladas. As pessoas sonhavam, laboravam e dormiam tal como antes. E, por uma questão de hábito, refreavam os seus pensamentos para que estes não se aventurassem na imensa escuridão que era o amanhã. (…)

O silêncio do restaurante era tão profundo como a própria noite. Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa a despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Num súbito brilho de luz, vislumbrou a luta humana e o heroísmo. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. A sua alma pareceu distender-se. Mas só por uns breves instantes. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto refletido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido. Um olho estava mais aberto do que o outro. O olho esquerdo estava mergulhado no passado e o olho direito fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e de ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé.”

                       O coração é um conquistador solitário / Carson McCullers. Lisboa: Ed. Presença: 2012 

terça-feira, 12 de abril de 2022

Estante de leitura – Espião na primeira pessoa

«Para falar verdade, não sei de onde é que ele veio. Descobri-o por acaso. (…) Às vezes as pessoas aparecem assim vindas não se sabe de onde. Limitam-se a aparecer e depois a desaparecer. Muito depressa. Precisamente como uma fotografia que emerge de um banho químico. (…)

Era aquela altura do dia de que tanto gosto. Sobre a qual houve quem escrevesse poemas. A altura do dia em que a tarde caminha para noite. Crepúsculo, acho que é assim que se chama, e esgueirei-me para o outro lado da estrada. Atravessei a estrada. Tinha estado a chover durante três dias seguidos. A chover. A rua ainda tinha água a correr. A água caía em todo o lado. Não era chuva mas água residual. Cheguei ao outro lado passando pelos carros estacionados, todos os tipo de carros, e cheguei à cerca que não era uma cerca de camélias nem de hidrângeas nem de nada do género. Não era identificável. Saíam flores brancas dela mas não sabia o que eram. Consigo topá-lo através das flores brancas, através da cerca. Mas não tinha a certeza. Era capaz de topar qualquer coisa dali, mas não tinha a certeza do que seria. Oh, não importa, descubro depois. É isso que se passa com depois. Não se sabe o que vai surgir. É certo que alguma coisa vai acontecer mas não se sabe o que é. Por exemplo – estou na rua, por exemplo. Cá fora com as aves e os insetos. Não é bem cá fora, mas quase. Mesmo do outro lado. Nunca é como foi. As nuvens. O enorme céu. As flores. O chilrear. (…)

Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.
De facto vem à parte. Apresenta-se como se fosse experimentado em fragmentos.
Porquê? Porquê, por exemplo, o passado é… Desculpem… porquê?, por exemplo, se prefere o presente ao passado? Porque assumidamente o presente é aquilo que faz memórias. É o que faz o passado. Às vezes parece muito fugaz.

Qual é afinal a experiência do presente? A experiência do presente é uma coisa anónima. Uma coisa completamente anónima. A maneira como o sol bate no chão. A maneira como bate em pés descalços. A maneira como vinte e cinco cêntimos costumavam durar. A maneira como o cloro cheira. A maneira como os calções assentam. A maneira como a água corre pela cabeça. A maneira como os olhos se abrem debaixo de água e se veem coisas. O que se vê? Veem-se pessoas, outros seres humanos que lutam por manter os olhos abertos debaixo de água. O presente é uma coisa multifacetada. Muito parecida com o passado.

Mas o presente vem com uma experiência tangível, diz ele, balançando para trás e para a frente. Balançando. Balançando. Ele diz, parando. Não mas esperem um segundo só um segundo como é com os milagres. E como é com a cura. Num dado momento do passado – num momento qualquer do passado – tudo estava bem. Não havia desespero. Tudo funcionava. Portanto qual é acura. Há alguma maneira de curar o presente? Podemos fazer uma coisa tão simples como tomar um banho quente de água mineral. Ou temos de recomeçar tudo. Tem de haver uma cura. Somos filhos do milagroso. Longa paragem. Parando. Uma longa paragem. Parando. Ninguém se agarra ao presente. De facto, ninguém se agarra a ninguém.
(…) Houve uma altura em que tudo parecia um conto de fadas”.

Espião na primeira pessoa / Sam Shepard. Lisboa: Quetzal: 2018.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Estante de leitura – O último Verão de Klingsor

«Um verão apaixonado e fugaz tinha começado. Os dias quentes, tão longos que eram, ardiam como bandeirantes flamejantes, as noites breves e abafadas de lua cheia secundavam noites breves e abafadas de chuva, as semanas resplandecentes ardiam em febre, velozes e repletas de imagens como em sonhos. Passava da meia-noite. Klingsor estava na estreita varanda de pedra do seu estúdio, regressado de um passeio noturno. À sua frente afundava profunda e vertiginosamente o antigo jardim do terraço, um aglomerado profundo e sombrio de densas copas, palmeiras, cedros, olaias, castanheiros, faias roxas, eucaliptos cobertos de trepadeiras, cipós, glicínias. Sobre o negrume das árvores luziam as grandes folhas metálicas das magnólias estivais. No meio delas, semifechadas, as enormes flores brancas como neve, grandes como cabeças humanas, pálidas como a Lua e o marfim, de onde se desprendia um efusivo aroma citrino, vivo e penetrante. Uma música pairava no ar vinda de uma distância indefinida, vibrando cansada, uma guitarra, ou talvez um piano, não se distinguia. Subitamente, nas gaiolas, um pavão soltou um grito, duas e três vezes, e rasgou a noite da floresta com o som brusco, zangado e seco da sua voz atormentada, como se todo o sofrimento do mundo animal ecoasse inteiro e estridente, arrancado às profundezas. As estrelas derramavam a sua luz sobre o vale da floresta. uma capela branca, antiga e mágica, vigiava solitária do alto da floresta sem fim. Lago, montanhas e céu fundiam-se na lonjura do horizonte. (…)

Era aquela hora tardia e dourada em que a luz do dia ainda incandescia por todo o lado e já a Lua ganhava brilho, e os primeiros morcegos pairavam o ar tremeluzente e verde. Uma margem da floresta recebia suave a última luz, ramos iluminados de castanheiros recortados nas negras sombras, um casebre amarelo irradiava a uz absorvida durante o dia, luzindo suavemente como um topázio amarelo, vermelhos - rosados e violetas os pequenos caminhos pelo meio dos prados, vinhas e floresta, aqui e ali viam-se já alguns ramos de acácia amarelecidos, o céu ocidental dourado e verde sobre as montanhas de azul - veludo. (…)

O mundo é indescritivelmente bonito e multiforme, chama por mim através desta porta verde e alta, todos os dias e todas as noites, e grita e exige, e eu acabo por correr lá para fora, uma e outra vez, e arranco um pedaço para mim, um pedaço minúsculo. O verão seco transformou as redondezas verdejantes tornando-as maravilhosamente luminosas e vermelhas. Nunca pensei que teria de voltar a usar vermelho inglês e siena. O outono ameaça romper, restolhais, vindimadores, ceifeiros de milho, bosques vermelhos. Ainda vou fazer tudo isso uma vez mais, dia após dia, e pintar mais umas centenas de estudos. Mas também sinto que me vou virar para dentro e voltar mais uma vez a pintar partindo da memória e da fantasia, como fiz durante algum tempo quando era rapaz, vou fazer poemas e tecer sonhos. Isso também é necessário.”
 
                                                 O Último Verão / Herman Hesse. Lisboa: D. Quixote, 2020.

sábado, 23 de outubro de 2021

A leitura silenciosa (II)

 


A leitura silenciosa foi tomando lugar ao longo da sociedade ocidental nos espaços da Europa e América do norte de um modo mais regular a partir do Iluminismo. As campanhas sobre o seu perigo, sobretudo para o público feminino desenvolveram-se significativamente no século XVIII. Mas essa leitura alimentou a construção de universos individuais mais livres. A leitura desenvolveu-se nesses períodos (séculos XVIII e XIX), integrados nos movimentos de industrialização, de maior democracia das sociedades e alfabetização generalizada já consumada no século XX.
 
Essa leitura silenciosa, sinal de uma liberdade e de uma independência assustou grupos que usavam abordagens moralistas, que viam nela algo perturbador da paz familiar e social.  a leitura era assim uma ameaça, justamente porque ao ser silenciosa integrava muitas possibilidades no domínio do privado, o que significava algo íntimo e fora do controle familiar, religioso e social. Só com a leitura silenciosa foi possível construir esta intimidade ente o livro e o leitor.
 
A leitura silenciosa nem sempre foi praticada. Quando ela emerge, já representa uma forma de emancipação. Foi no século IV que o bispo Ambrósio de Milão deu a conhecer justamente a Santo Agostinho uma ideia sobre a leitura que este desconhecia, pois relatou-a nas suas Confissões. E o gesto que causa espanto a Santo Agostinho é que foi encontrar o bispo de Milão a ler silenciosamente e que pela leitura se observava os seus olhos que deslizavam ao sabor de uma mensagem que se interiorizava em si. 
 
O que Santo Agostinho achou espantoso fosse que os olhos lessem, mas nenhuma voz se ouvisse. Santo Agostinho interrogou-se se não seria uma forma de não ser interrompido, tendo compreendido que aquela forma de ler, de modo silencioso permitia não só poupar tempo, como construir uma relação de intimidade com a leitura mais harmoniosa, enquanto o leitor permanece mais próximo de si próprio. O afastamento dos outros foi outra das possibilidades que Santo Agostinho reconheceu na atitude realizada na leitura silenciosa que observou.
 
Se no século IV ler em silêncio era considerada algo inesperado, significa que na Alta Idade Média e no período clássico a leitura era feita sobretudo pela voz que se ouvia. Ler era nesse tempo e foi-o em grande parte, em muitos momentos até ao fim do Renascimento, uma forma associada ao pensar e ao falar. Era a sua fonte de informação, a forma de construir uma relação com o exterior. Ler em voz alta era reconhecer o grupo e a ordem social.
 
A leitura silenciosa nasceu progressivamente nos mosteiros medievais e entre os escribas que faziam a cópia dos documentos. Mais tarde chegou à universidade e entrou nos círculos da corte e da aristocracia que detinham mais cultura. A sua integração na população foi muito lenta. O túmulo de Leonor de Aquitânia, que é do princípio do século XIII mostra-nos, ela deitada, num hipotético leito a ler, com o livro aberto nas suas mãos. 
 
O túmulo de Leonor da é sem dúvida uma leitura silenciosa, uma leitura para eternidade, no reconhecimento da ideia de que a leitura feita assim podia ser uma "alegria celestial". Sabendo que Leonor da Aquitânia promoveu as artes e a literatura, tendo sido sua padroeira e vivido os últimos anos num convento, confirma-nos a ideia que a leitura podia ser uma recompensa celestial. De certo modo, com Leonor da Aquitânia nasce de um modo diverso essa ideia da leitura, como um lugar de paraíso. Os séculos seguintes dariam outras formas a esse desejo singelo de Leonor.
 
Imagem: Leonor de Aquitânia, c. 1204, (Abadia de Fontevraud, Anjou - Maine-et-Loire).
 
Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, C.L., Lx: 2005.
Imagem: Iluminura do século XIII (Bibliothèque Sainte-Geneviève, Paris, MS 2200, folio 58).
 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Estante de leitura – Lusco-fusco

 “A natureza não é cruel, apenas implacavelmente indiferente. Essa é uma das lições mais duras que os humanos têm de aprender.” (Richard Dawkins)


«O Universo, nome que iclui tudo o que vemos e, principalmente, o que não vemos, não sabemos e não está ao nosso humano alcance, coisa escura rasgada por miríades de pontos luminosos, um aqui mais perto, outro ali mais longe, vastidão sem fundo, sem superfície, sem saliências, sem profundidades, um nada sem princípio nem fim, sem palavras concretas que o possam definir porque, na verdade, não tem definição – dizia eu que o Universo, vamos chamar-lhe assim e definitivamente, o Universo sempre foi iluminado aqui e mais além pelas chamadas estrelas e por gente. (…)
 Todos nós concordamos sobre a existência dos Elementais e mesmo quem nunca os viu, ouviu ou pressentiu nas suas diferentes áreas de vida, sabe que há uma grande variedade destes seres nas quatro grandes categorias – os que vivem na Terra, os que vivem na Água, os do Ar e os do Fogo e outros, ainda mais inconcebíveis no nosso pensamento e no impossível alcance do nosso olhar. (…)

 Nessas noites de verão é difícil adormecer. Penso muito. Oiço tudo com grande nitidez. Parece que os meus olhos jamais se irão fecha! Fico para ali deitado a olhar pela clarabóia que está no tecto do meu quarto mesmo por cima da minha cama, vejo aquele profundo azul-escuro povoado de pequeníssimos pontos tão luminosos e imagino, mais uma vez, que poderia, se quisesse, caminhar até ao rio sem nunca tropeçar em nada! Vejo também pela minha claraboia uma estrada larga e branca! Imagine-se! Uma estrada de estrelas! Quem me dera caminhar por essa estrada de estrelas à vontade, sem destino, sem cuidados, caminhar, caminhar e cantarolar qualquer canção e sentir-me a levitar, a esvoaçar, com asas finas e transparentes que me transportassem mais além, certo de nunca chegar ao fim dessa estrada.
 Às vezes vejo a lua. Quando ela se deixa ver, claro! Gosto muito quando é aquela lua fininha e curvada sobre si própria, parecendo-se até com o feitio dos bolos que a minha faz. Geralmente, por dentro e à volta dessa luz existem milhares de pontos brilhantes que a enfeitam e estão tão próximos!!»

Lusco-Fusco / Cristina Carvalho. Porto: Sextante Editora, 2011.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Estante de leitura – Contra mim

"Para mim, que ainda adorava ser miúdo, longe de curado da infância, embora fosse peculiarmente carente, um espantado, pacóvio e medricas, a distância que via até à felicidade era o mundo inteiro de todas as coisas. Sabia-me sempre a assistir, e a felicidade, pensava eu, não podia ser dos quietos. Tinha de pertencer aos mandões, aos que se punham a mudar coisas do lugar, a ajeitar peças, a dizer tudo muito alto para serem bem entendidos ou assustadores aos demais. E eu sossegava as plantas. 

Quero dizer, tinha uma compaixão sofrida pelas coisas indefesas, as que apenas procuravam a beleza de crescerem, em silêncio, sem pedirem nada, talvez em profunda meditação e mais nada. Tinha pena das plantas nos temporais. alagavam-se as terras e descobriam-se as raízes. Secavam. Talvez afogassem de tanta água. Não tinham voz, não podiam protestar nem assumir uma paixão. Eu não falava com elas mas pedia a Deus que lhes dissesse o que pensava, para que soubessem que as queria e defenderia. As plantas ficavam quietas. Tinha muito pena por isso. queria que tivessem pernas e se pusessem em passeio ou fuga, em abrigo. Pensava nas árvores com duas pernas. A correrem pelas estradas e a mudarem de lugar, a repensarem as praças e as matas para seu melhor conforto. A fugirem do fogo. A berrarem contra as pessoas estúpidas que lhes faziam mal.

  Um menino que pensava no desamparo das ervas e das flores silvestres, das silvas e das árvores, era um espírito que se preparava especialmente para sofrer, por mais que a meninice pudesse sugerir momentos de alienação e deleite. E eu era o rapaz preparado para sofrer. Compadecia-me pelas belezas todas e esperava poder crescer bonito, para deixar de sofrer e para casar. Para ser feliz. Esperar era a aventura. A idade haveria de me trazer tudo. A idade e as suas explicações guardadas, adiadas, doseadas, administradas paulatinamente para a sobrevivência e terapia da vontade e maravilha de viver.
  Ando, a vida inteira, sobretudo à caça de satisfação para uma angústia constante que se prende a tudo, a ter e não ter, sentir que nunca está completo. que nunca tempo algum é suficiente. Falta-me tempo, quero mais, e quero gente e quero corresponder, pertencer genuinamente a cada lugar e melhorar os lugares e melhorar tudo, tanta coisa que nem entendo, não chego a conhecer, não sou sequer inteligente o bastante para as aventuras todas. E digo angústia porque fica no ar um lado mais existencial e filosófico do que a constatação sempre tão violenta da tristeza, alguma tristeza, e a vida faz-se de andar entre alguma tristeza e procurar saída."

Contra mim / Valter Hugo Mãe. Porto: Porto Editora, 2020.