sábado, 14 de maio de 2022

Estante de leitura – Alexis ou Tratado do vão Combate

“Toda a felicidade é inocência. Ainda que vos escandalize, é preciso repetir essa palavra que parece sempre miserável, pois nada prova melhor a nossa miséria do que a importância da felicidade. Durante algumas semanas, vivi de olhos fechados. Não abandonara a música; sentia pelo contrário uma grande facilidade em mover-me nela; conheceis essa leveza que experimentamos no fundo dos sonhos. Parecia que os minutos matinais me libertavam do meu corpo para o resto do dia. As minhas impressões de então, por muito diversas que fossem, são uma só na minha memória: dir-se-ia que a minha sensibilidade, porque não se cingia apenas a mim, se dilatava pelas coisas. A emoção da manhã prolongava-se nas frases musicais da tarde; – certo cambiante das estações, certo perfume, alguma antiga melodia de que então me enamorei passaram a ser para mim eternas tentadoras, porque me falam de um outro.

Aquilo que porventura torna a volúpia numa coisa tão terrível é ela ensinar-nos que temos um corpo. Até então, ele servia-nos a penas para viver. agora, sentimos que esse corpo tem a sua existência particular, os seus sonhos, a sua vontade, e que, até à nossa morte, teremos de o ter em conta, ceder, transigir ou lutar. Sentimos (julgamos sentir) que a nossa alma é tão-só o seu melhor sonho. Aconteceu-me, sozinho, frente a um espelho que desdobrava a minha angústia, perguntar-me o que teria de comum com o meu corpo, com os seus prazeres ou os seus males, como se eu não lhe pertencesse. Mas pertenço-lhe, minha amiga. Este corpo, que parece tão frágil, é todavia mais durável que as minhas virtuosas resoluções, talvez até que a minha alma, pois quantas vezes não morre a alma antes dele. Esta frase, Monique choca-vos por certo mais que toda a minha confissão: acreditais na alma imortal. Perdoai-me por ser menos seguro que vós ou menos orgulhoso; muitas vezes, a alma apenas me parece uma simples respiração do corpo.

E foi nesse momento que as minhas mãos ne apareceram. As minhas mãos repousavam nas teclas e era como se tivesse debaixo dos olhos a minha alma viva duas vezes. As minhas mãos pareceram-me de repente extraordinariamente sensitivas; mesmo imóveis, pareciam aflorar o silêncio como para o incitar a revelar-se em acordes. Repousavam, ainda um pouco trémulas do ritmo, e havia nelas todos os gestos futuros, como todos os sons possíveis dormiam naquele teclado. Havia atado em volta dos corpos a alegria breve dos abraços; haviam palpado, nos teclados sonoros, a forma das notas invisíveis; haviam, nas trevas, encerrado numa carícia o contorno dos corpos adormecidos. Muitas vezes as mantivera erguidas, num gesto de oração; muitas vezes as unira às vossas, mas nada disso se lembravam. Eram mãos anónimas, as mãos de um músico. Eram o meu intermediário, pela música, com esse infinito que somos tentados a chamar Deus, e, pelas carícias, o meu meio de contacto com a vida dos outros. Eram mãos apagadas, tão pálidas como o marfim em que se apoiavam, porque as tinha privado de sol, de trabalho e de alegria. E no entanto, eram servas bem fiéis; haviam-me alimentado, quando a música era o meu ganha-pão; e começava a compreender que há uma certa beleza em viver-se da sua arte; porquanto isso nos liberta de tudo o que não seja ela.

Na da iguala a doçura de uma derrota que sabemos definitiva: em Viena, durante esses últimos dias soalheiros de Outono, conheci o fascínio de reencontrar o meu corpo. O meu corpo que me cura de ter uma alma. Não soube, ou não ousei dizer-vos a adoração ardente que a beleza e o mistério dos corpos me faz sentir, nem como cada um deles, quando se oferece, parece trazer-me um fragmento da juventude humana. Minha amiga, viver é difícil. Já construí teorias morais de sobra para construir mais ainda, e contraditórias: sou demasiado sensato para acreditar que a felicidade apenas se encontra à beira de um erro, e o vício, tal como a virtude, não pode dar a alegria aos que a não têm em si mesmos. Simplesmente, ainda prefiro o erro (se de erro se trata) a uma denegação de nós próprios tão próxima da demência. A vida fez de mim aquilo que eu sou (se quisermos) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e este consentimento, assim o espero, sem me trazer felicidade, há - de proporcionar-me a serenidade. Minha amiga, sempre vos julguei capaz de tudo compreender, o que é bem mais raro do que perdoar tudo.
Tendo sido incapaz de viver segundo a moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha: é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo….. (…)

Alexis ou o Tratado do vão combate / Marquerite Yourcenar, Lisboa: Difel; 1988.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Estante de leitura – Doce Tóquio

"Como está? Espero que se encontre bem. O tempo ficou muito frio e invernoso, não é verdade? Continuo a tentar curar a constipação e há dias em que não me levanto da cama.

Como estão as coisas na Doraharu? Depois de o ver, fiquei com a impressão de que poderia estar com problemas e isso deixou-me preocupada. Ainda penso em si e na loja.

Recorda-se de como costumava perguntar-me o que estava a fazer enquanto preparava a pasta de feijão? Eu aproximava muito a cara dos feijões azuki e o senhor perguntava-me se ouvia alguma coisa. Bem, a única resposta que eu tinha era Escutar, mas pensei que se lhe dissesse isso ficaria confuso e foi por isso preferi não dizer nada.

Uma coisa que posso fazer em Tenshoen é cheirar o vento e escutar o murmúrio das árvores. Presto atenção à linguagem das coisas deste mundo que não usam palavras. É a isso que chamo Escutar, e faço-o há sessenta anos.

Quando preparo pasta de feijão doce, observo atentamente a cor da pele dos feijões azuki. Interiorizo as suas vozes. Isso pode significar que imagino os dias de chuva e de bom tempo que eles viram. Escuto as histórias dos ventos que sopram durante a viagem até chegarem a mim.

Acredito que tudo neste mundo tem uma linguagem. Temos a capacidade de abrir os ouvidos e as mentes a todas as coisas. Pode ser alguém a caminhar pela rua, e até o sol ou o vento. Compreendo que pode ter pensado que eu era uma velha chata e tenho pena de não ter conseguido transmitir-lhe esta mensagem vital, apesar de tudo o que lhe disse.

Quando passeio pela floresta em Tenshoen penso na Doraharu, em si, naquelas amorosas meninas e na Wakana. Desde que os laços com a minha irmã se romperam, não conheço mais ninguém fora destas muralhas. Ignoro o tempo de vida que me resta, mas sinto que o senhor e a Wakana são a minha família.

Talvez seja por isso que quando pensei em si ouvi sussurros no vento que soprou do outro lado da sebe e tive o pressentimento de que talvez fosse boa ideia escrever-lhe. (…)

Em todo o caso, tenho a certeza de que será capaz de criar os seus dorayaki. Eu faço pasto de feijão doce há muito tempo, mas isso não significa que tem de fazer tudo da mesma maneira que eu. É importante ser arrojado e decidido. Quando puder dizer com segurança que encontrou o seu estilo de dorayaki, será o início de um novo dia para si. Acredito piamente nisto. Por favor, tenha a coragem de seguir o seu caminho. Sei que terá sucesso.

Cumprimentos 
Tokue Yoshii”

Doce Tóquio / Durian Sukegawa. Alfragide: Asa, 2022.

sábado, 16 de abril de 2022

Estante de leitura – Louvor da terra

«Eles são [as plantas e os animais] o que nós fomos: são o que havemos de tornar a ser. Fomos natureza como eles, e a nossa cultura deverá fazer-nos voltar à natureza pela via da razão e da liberdade.” (Friedrich Schiller)
“No jardim, vivo as estações muito mais interessantes. Assim é grande também o sofrimento em vista do inverno que se avizinha. A luz enfraquece, torna-se mais ténue e macilenta. Eu nunca prestar tanta atenção à luz. A luz mortiça é-me dolorosa. No jardim, as estações são sobretudo corporalmente percebidas. O frio gelado da água que sai do bidão que recebe a água da chuva penetra profundamente no corpo. Todavia, a dor que sinto assim é uma dor benéfica, chega até a ser reconfortante. Devolve-me a realidade, e a própria corporalidade, que hoje se perde cada vez mais no mundo digital bem temperado. Este mundo digital não conhece temperatura, dor nem corpo. Mas o jardim é rico em sensibilidade e materialidade. Contém muito mais mundo do que o ecrã do computador.
Desde que trabalho no jardim, percebo o tempo de modo diferente. Corre muito mais devagar. Dilata-se. Parece-me que falta quase uma eternidade até que chegue a próxima Primavera. A próxima queda outonal das folhas afasta-se até uma distância inconcebível. O próprio Verão me parece infinitamente longínquo. O Inverno começa já a tornar-se para mim terno. O trabalho no jardim invernal prolonga-o. O Inverno nunca foi para mim tão longo como no meu primeiro ano de jardineiro. Sofri muito por causa do frio e do gelo persistentes, mas não por mim, antes pelas flores de Inverno que mantinham a sua floração apesar da neve e do gelo constante. A minha maior preocupação eram as flores e, por isso, oferecia-lhes a minha assistência. O jardim afasta-me um passo mais do meu eu. Com o jardim vou aprendendo lentamente o que significa oferecer assistência, ter preocupação com os outros. O jardim tornou-se um lugar de amor.
O tempo do jardim é um tempo do diferente. O jardim tem o seu próprio tempo, do qual eu não posso dispor. Cada planta tem o seu próprio tempo específico. No jardim cruzam-se muitos tempos específicos. Os açafrões-de-outono e os açafrões-de-primavera parecem semelhantes, mas têm um sentido do tempo completamente diferente. É espantoso como cada planta tem uma consciência do tempo muito marcada, talvez maior do que a do homem, que hoje de certo modo se tornou atemporal, pobre de tempo. O jardim torna possível uma experiência temporal intensa. Durante o meu trabalho no jardim, enriqueci-me de tempo. O jardim para o qual se trabalha devolve muito Dá-me ser e tempo. A espera incerta, a paciência necessária, o crescimento lento, engendram um sentido especial do tempo. (…)
Na sua obra Amor e Conhecimento, Max Scheler refere que, “de uma forma estranha e misteriosa”, Santo Agostinho atribui às plantas a necessidade “de que os homens as contemplem, como se graças a um conhecimento do se ser que o amor guia experimentassem assim qualquer coisa de análogo À redenção”. O conhecimento não é um ganho, ou não o é pelo menos o meu ganho, nem a minha redenção, mas a redenção do diferente. O conhecimento é amor. O olhar amoroso, o conhecimento guiado pelo amor redime a flor da sua carência ontológica. O jardim é, portanto, um lugar de redenção.”
                                   Louvor da Terra / Byung-Chul Han: Lisboa. Relógio D´Água: 2020 

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Estante de leitura – O velho e o mar

«Sonhava apenas com lugares e os leões nas praias. Brincavam quais gatos pequenos no escuro, e gostava deles como gostava do rapaz. Com o rapaz nunca sonhava. Acordou, olhou pela porta para a Lua, desenrolou as calças e enfiou-as. Urinou fora da choupana e foi estrada acima para acordar o rapaz. Tiritava de frio da manhã. Mas sabia que tiritaria até aquecer e que daí a pouco estava a remar. (…)

No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trémulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas. gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à excepção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar.” (…)

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mar dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem, el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades, era porque não podia deixar de as fazer. “A Lua influi no mar como as mulheres”, pensava ele. (…)
As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azul-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase quase púrpura. ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o Sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do Sol nas águas, com o Sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de uma medusa flutuando junto do barco. Deitou-se se lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água. (…)

Já estava escuro, porque, em Setembro, escurece depressa, depois do sol-pôr. Encostado à madeira gasta, repousava quanto podia. as primeiras estrelas surgiam. Não sabia o nome da Rígel, mas via-a, e sabia que não tardariam a aparecer todas e que teria em breve todas as suas amigas distantes.
– Também o peixe é meu amigo – disse em voz alta. – Nunca vi nem ouvi falar de um peixe assim. Mas tenho de o matar. Agrada-me pensar que não temos de matar as estrelas.
“Ora imagina”, pensou, “que um homem devia todos os dias ver se matava a Lua. A lua foge. Mas imagina que um homem todos os dias teria de ver se matava o Sol? Nascemos com muita sorte.”
Sentiu depois pena do grande peixe, que nada tinha de comer, e a sua determinação em matá-lo não contrariava a pena que sentia. “A quantas pessoas dará de de comer?”, pensou. “Mas são elas dignas de o comer? Não, claro que não. Não há ninguém digno de o comer, tal é o seu comportamento, a sua grande dignidade.”

“Não compreendo estas coisas”, pensou. “Mas é bom que a gente não tenha de ver se mata o Sol, a Lua ou as estrelas. Basta vivermos no mar e matarmos os nosso verdadeiros irmãos.” (…)
Na treva, porém, sem clarão fulgindo, nem luzes, só com o vento e o firme impulso da vela, sentiu-se como se já estivesse morto. Juntou as mãos para sentir as palmas. Não estavam mortas, e era capaz de sentir a dor da vida, apenas com abri-las e fechá-las.”

O velho e o mar / Ernest Hemingway. Porto: Porto Editora: 2015

Estante de leitura – O coração é um caçador solitário

«Aproximou-se ainda mais do mudo e baixou a voz, num sussurro embriagado: – E porque será? Porque é que persiste este milagre da ignorância? Por causa de uma única coisa: conspiração. Uma conspiração pérfida e imensa. O obscurantismo. (…) Até que, por fim, o dilúvio de palavras ganhou forma e ele proferiu-as com uma êxtase embriagada: – As coisas que eles nos fizeram! As verdades que eles transformaram em mentiras. Os ideais que conspurcaram e destruíram. Jesus, por exemplo. Era um dos nossos. Ele sabia. Quando disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus… Ele sabia muito bem o que estava a dizer, com um raio! Olhe bem para o que a Igreja fez a Jesus nestes últimos dois mil anos. Naquilo em que o transformaram. A maneira como a Igreja manipulou todas as Suas palavras para o seu próprio proveito. Se ainda fosse vivo, Jesus estaria agora preso. Seria uma das poucas pessoas que sabem realmente. Eu e Jesus sentar-nos-íamos a uma mesa, olhar-nos-íamos nos olhos e ambos saberíamos. Eu, Jesus e Karl Marx podíamos sentar-nos a uma mesa e… (…)

O que é feito da nossa liberdade? Os homens que combateram na Revolução Americana têm tanto a ver com as Filhas da Revolução Americana como eu tenho a ver com um cão pequinês barrigudo e perfumado! Eles acreditavam no que diziam em relação à liberdade. Tomaram parte numa revolução a sério. Lutaram para que este fosse um país onde todos os homens pudessem ser livres e iguais. Ou seja, partiram do pressuposto de que todos os homens são iguais aos olhos da Natureza, que todos têm direito às mesmas oportunidades. Isso não significava que vinte por cento da população podia roubar os outros oitenta por cento dos seus meios de subsistência. Não significava que um homem rico podia explorar dez mil homens, por forma a ficar ainda mais rico. Não significava que os tiranos podiam fazer deste país o que lhes apetecesse, fazendo com que milhões de pessoas ficassem dispostas a tudo, incluindo roubar, mentir e arrancar o braço direito, para poderem trabalhar e comer três refeições por dia. Transformaram a palavra “liberdade” numa blasfémia, ouviu?! Transformaram a palavra “liberdade” num monte de lixo! (…) Nada havia mudado realmente. A tão falada greve nunca chegou a acontecer porque as pessoas foram incapazes de se aliarem. Tal como antes. O Sunny Dixie Show continuava a funcionar, até nas noites mais geladas. As pessoas sonhavam, laboravam e dormiam tal como antes. E, por uma questão de hábito, refreavam os seus pensamentos para que estes não se aventurassem na imensa escuridão que era o amanhã. (…)

O silêncio do restaurante era tão profundo como a própria noite. Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa a despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Num súbito brilho de luz, vislumbrou a luta humana e o heroísmo. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. A sua alma pareceu distender-se. Mas só por uns breves instantes. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto refletido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido. Um olho estava mais aberto do que o outro. O olho esquerdo estava mergulhado no passado e o olho direito fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e de ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé.”

                       O coração é um conquistador solitário / Carson McCullers. Lisboa: Ed. Presença: 2012 

terça-feira, 12 de abril de 2022

Estante de leitura – Espião na primeira pessoa

«Para falar verdade, não sei de onde é que ele veio. Descobri-o por acaso. (…) Às vezes as pessoas aparecem assim vindas não se sabe de onde. Limitam-se a aparecer e depois a desaparecer. Muito depressa. Precisamente como uma fotografia que emerge de um banho químico. (…)

Era aquela altura do dia de que tanto gosto. Sobre a qual houve quem escrevesse poemas. A altura do dia em que a tarde caminha para noite. Crepúsculo, acho que é assim que se chama, e esgueirei-me para o outro lado da estrada. Atravessei a estrada. Tinha estado a chover durante três dias seguidos. A chover. A rua ainda tinha água a correr. A água caía em todo o lado. Não era chuva mas água residual. Cheguei ao outro lado passando pelos carros estacionados, todos os tipo de carros, e cheguei à cerca que não era uma cerca de camélias nem de hidrângeas nem de nada do género. Não era identificável. Saíam flores brancas dela mas não sabia o que eram. Consigo topá-lo através das flores brancas, através da cerca. Mas não tinha a certeza. Era capaz de topar qualquer coisa dali, mas não tinha a certeza do que seria. Oh, não importa, descubro depois. É isso que se passa com depois. Não se sabe o que vai surgir. É certo que alguma coisa vai acontecer mas não se sabe o que é. Por exemplo – estou na rua, por exemplo. Cá fora com as aves e os insetos. Não é bem cá fora, mas quase. Mesmo do outro lado. Nunca é como foi. As nuvens. O enorme céu. As flores. O chilrear. (…)

Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.
De facto vem à parte. Apresenta-se como se fosse experimentado em fragmentos.
Porquê? Porquê, por exemplo, o passado é… Desculpem… porquê?, por exemplo, se prefere o presente ao passado? Porque assumidamente o presente é aquilo que faz memórias. É o que faz o passado. Às vezes parece muito fugaz.

Qual é afinal a experiência do presente? A experiência do presente é uma coisa anónima. Uma coisa completamente anónima. A maneira como o sol bate no chão. A maneira como bate em pés descalços. A maneira como vinte e cinco cêntimos costumavam durar. A maneira como o cloro cheira. A maneira como os calções assentam. A maneira como a água corre pela cabeça. A maneira como os olhos se abrem debaixo de água e se veem coisas. O que se vê? Veem-se pessoas, outros seres humanos que lutam por manter os olhos abertos debaixo de água. O presente é uma coisa multifacetada. Muito parecida com o passado.

Mas o presente vem com uma experiência tangível, diz ele, balançando para trás e para a frente. Balançando. Balançando. Ele diz, parando. Não mas esperem um segundo só um segundo como é com os milagres. E como é com a cura. Num dado momento do passado – num momento qualquer do passado – tudo estava bem. Não havia desespero. Tudo funcionava. Portanto qual é acura. Há alguma maneira de curar o presente? Podemos fazer uma coisa tão simples como tomar um banho quente de água mineral. Ou temos de recomeçar tudo. Tem de haver uma cura. Somos filhos do milagroso. Longa paragem. Parando. Uma longa paragem. Parando. Ninguém se agarra ao presente. De facto, ninguém se agarra a ninguém.
(…) Houve uma altura em que tudo parecia um conto de fadas”.

Espião na primeira pessoa / Sam Shepard. Lisboa: Quetzal: 2018.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Estante de leitura – O último Verão de Klingsor

«Um verão apaixonado e fugaz tinha começado. Os dias quentes, tão longos que eram, ardiam como bandeirantes flamejantes, as noites breves e abafadas de lua cheia secundavam noites breves e abafadas de chuva, as semanas resplandecentes ardiam em febre, velozes e repletas de imagens como em sonhos. Passava da meia-noite. Klingsor estava na estreita varanda de pedra do seu estúdio, regressado de um passeio noturno. À sua frente afundava profunda e vertiginosamente o antigo jardim do terraço, um aglomerado profundo e sombrio de densas copas, palmeiras, cedros, olaias, castanheiros, faias roxas, eucaliptos cobertos de trepadeiras, cipós, glicínias. Sobre o negrume das árvores luziam as grandes folhas metálicas das magnólias estivais. No meio delas, semifechadas, as enormes flores brancas como neve, grandes como cabeças humanas, pálidas como a Lua e o marfim, de onde se desprendia um efusivo aroma citrino, vivo e penetrante. Uma música pairava no ar vinda de uma distância indefinida, vibrando cansada, uma guitarra, ou talvez um piano, não se distinguia. Subitamente, nas gaiolas, um pavão soltou um grito, duas e três vezes, e rasgou a noite da floresta com o som brusco, zangado e seco da sua voz atormentada, como se todo o sofrimento do mundo animal ecoasse inteiro e estridente, arrancado às profundezas. As estrelas derramavam a sua luz sobre o vale da floresta. uma capela branca, antiga e mágica, vigiava solitária do alto da floresta sem fim. Lago, montanhas e céu fundiam-se na lonjura do horizonte. (…)

Era aquela hora tardia e dourada em que a luz do dia ainda incandescia por todo o lado e já a Lua ganhava brilho, e os primeiros morcegos pairavam o ar tremeluzente e verde. Uma margem da floresta recebia suave a última luz, ramos iluminados de castanheiros recortados nas negras sombras, um casebre amarelo irradiava a uz absorvida durante o dia, luzindo suavemente como um topázio amarelo, vermelhos - rosados e violetas os pequenos caminhos pelo meio dos prados, vinhas e floresta, aqui e ali viam-se já alguns ramos de acácia amarelecidos, o céu ocidental dourado e verde sobre as montanhas de azul - veludo. (…)

O mundo é indescritivelmente bonito e multiforme, chama por mim através desta porta verde e alta, todos os dias e todas as noites, e grita e exige, e eu acabo por correr lá para fora, uma e outra vez, e arranco um pedaço para mim, um pedaço minúsculo. O verão seco transformou as redondezas verdejantes tornando-as maravilhosamente luminosas e vermelhas. Nunca pensei que teria de voltar a usar vermelho inglês e siena. O outono ameaça romper, restolhais, vindimadores, ceifeiros de milho, bosques vermelhos. Ainda vou fazer tudo isso uma vez mais, dia após dia, e pintar mais umas centenas de estudos. Mas também sinto que me vou virar para dentro e voltar mais uma vez a pintar partindo da memória e da fantasia, como fiz durante algum tempo quando era rapaz, vou fazer poemas e tecer sonhos. Isso também é necessário.”
 
                                                 O Último Verão / Herman Hesse. Lisboa: D. Quixote, 2020.