sexta-feira, 26 de junho de 2015

Estante de leitura – No meu peito não cabem pássaros

"Por alguma razão quis acreditar que entre tanta folha escrita haveria algures de estar o próprio. Passou muito tempo à procura de enciclopédias, compêndios e romances, mais tarde em contos e poemas, já com menos vida pela frente e outras ambições. Num momento certo soube desiludir-se e mudar de estratégia, passando a escrever-se. Quando um achador de terras se cansa de procurar caminhos, resta-lhe desistir ou abrir uma estrada nova, assim como os seus avós, assim consigo. Por uma estrada inventada chega-se a qualquer lugar e por palavras escritas chega-se a qualquer vida em qualquer época. Começa-se devagar, com descrença, e vai-se andando encostado ao desespero até que as palavras visitem os sonhos e tomem conta deles. 

Primeiro uma vida, depois outras que a suportem e justifiquem. Vidas ao lado e vidas antigas, vidas que hão-de-vir e outras que nunca cheguem a ser. Todas fazem falta, todas servem. Os animais e as plantas são máquinas de criar complexidade num universo onde é mais fácil destruí-la. De um lado as estrelas a queimar matéria, do outro células a fazer células. Um dia, por acidente ou excesso de zelo, os animais fizeram o homem e muito mudou. A humanidade é uma gigantesca indústria do complexo, capaz de fazer línguas, leis e até livros. 

Somos o contrário das estrelas e vamo-nos admirando com respeito e temor. Só por distração e fastio nos vamos impedindo de criar universos a cada instante. A vida que somos forçados a viver é só a que nos dão, e é só uma, dentro temos milhões de alternativas À distância curta de pensar nisso. Bastaria para tanto fazer um futuro e alguns passados, o presente vai no resto. Jorge tratou de inventar o que lhe foi necessário e muito mais. Entre os muros do jardim e as paredes da sala dos livros, viajou mais do que tantas andorinhas, foi muitos homens com todo os defeitos e todos os destinos. Não lutou contra o tempo porque o tempo correu para o sossegar. Afinal o tempo sossega-nos sempre. É dever dos homens envergonhar Deus, mostrar-lhe que há mais histórias do que a que se pratica, derrotar-lhe a inventiva e o estilo. Fazer muito com o pouco que nos deu e pedir-lhe que faça mais com tudo o resto.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Estante de leitura – Os cadernos de Malte Lauridis Brigge

"Creio que devia começar a trabalhar, agora que aprendo a ver. Tenho vinte e oito anos, e até aqui aconteceu tanto como nada. (…) Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiência. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós a não compreendemos (era uma alegria para outro), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, – e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações … Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos intermitentes. E também não chega que se tenha lembranças. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são nada. Só quando elas se fazem sangue em nós, e olhar e gestos, quando já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda. Mas todos os meus versos nasceram de outra maneira; não são versos portanto."


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Estante de leitura – O nome das coisas

 Sei que seria possível construir o mundo justo

"As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes

"O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
– Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo."

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"Cantaremos o desencontro
O limite e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro;
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga."

Sophia. (2006). “A forma justa” e “Poema”. O Nome das coisas. Caminho. 4ª edição.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Estante de leitura – António (4º livro de crónicas)

 "O fim do dia sempre me trouxe, sei lá porquê, uma espécie de tristeza mansa, um desejo vago de coisas mais vagas ainda, uma inquietação doce, um estado de alma impossível de exprimir, não inteiramente agradável, não  inteiramente desagradável, estranho apenas, um

   (como dizer?)

Sorriso com uma lágrima tranquila dentro, percebem? Tão difícil traduzir as emoções em palavras, é tão pobre o vocabulário que temos e vou-me consumindo nos livros a procurar exprimir isto. Dizia que começa a anoitecer tão cedo, as árvores do dia que nada têm a ver com as árvores da noite, misteriosas, densas, falando, falando, a engordarem de pássaros. Janelas iluminadas e eu a imaginar as vidas atrás das cortinas, por vezes, num intervalo, um relógio, uma pegada, um lustre que me assusta, vultos. Gestos femininos bonitos sempre, a delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos: somos pesados e sem graça, nós homens, ao pé delas. (…) Não possuímos seja o que for de ave ou nuvem, a nossa carne é densa e gaguejante. Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem , de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar. E depois uma espécie de inocência primordial, de leveza habitável: devo ter sido muito feliz na barriga da minha mãe, por dentro da sua voz, do seu sangue. (…) E as árvores da noite a murmurarem sem fim, os prédios muito mais altos, os sons de uma nitidez de cristal. Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. (…) Qual o meu nome verdadeiro debaixo do António que as pessoas conhecem? Não tenho nome: sou estas mãos, este corpo, esta caneta que escreve"

sábado, 23 de maio de 2015

Estante de leitura – Walden ou a vida os bosques

"É um engano pensar-se que, num país onde existem as evidências costumeiras de civilização, as condições de vida de uma grande massa de habitantes não podem ser tão baixas como as dos selvagens. (…) A absoluta simplicidade e o despojamento da vida que o homem levava nos tempos primitivos tinham pelo menos a vantagem de deixá-lo ser hóspede da natureza. Quando se sentia retemperado pelo alimento ou pelo sono, tinha a estrada novamente diante de si. Morava neste mundo como se fosse numa tenda e estava sempre palmilhando vales, cruzando planícies, galgando cumes de montanhas. Mas vejam só! Os homens transformaram-se nos instrumentos dos seus instrumentos. Aquele que na maior liberdade apanhava frutos nas árvores quando sentia fome, tornou-se agricultor; o que se deixava ficar debaixo de uma árvore por abrigo, transformou-se em caseiro. Já não acampamos durante uma noite, instalamo-nos na terra esquecidos do céu. Adoptámos o cristianismo como se tratasse simplesmente de um método de agricultura aperfeiçoado. Construímos para este mundo uma mansão familiar e para depois da morte um jazigo de família. As melhores obras de arte do homem exprimem a luta para libertar-se desta condição, mas o que resulta da nossa arte consiste apenas em tornar confortável este estado inferior e fazer-nos esquecer do outro mais elevado. (…) Se os homens construíssem as suas residências com as próprias mãos, e arranjassem alimento para si e a família de maneira bastante simples e honesta, quem sabe se não desenvolveriam universalmente a faculdade poética, cantando como fazem todos os pássaros quando assumem um compromisso desta natureza? (…) Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. (…) O tempo é apenas o rio em que vou pescando. Bebo nele, mas ao beber vejo-lhe o leito de areia e percebo quão raso é. A fina corrente logo se esvai, mas a eternidade permanece. Gostaria de beber mais fundo e de pescar no céu, em cujo leito os seixos são estrelas. Não consigo contá-las. Ignoro a primeira letra do alfabeto. Tenho lamentado sempre não ser tão sábio como no dia em que nasci."


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Estante de leitura – Memórias de Rómulo de Carvalho

"E
u gostava de aprender, lia muito, pensava muito mas com a liberdade que a escola não permitia. E também era preciso contar com o desequilíbrio da juventude, a descoberta do mundo e os dolorosos esforços para compreendê-lo, aceitá-lo ou rejeitá-lo. Desde jovem me senti desajustado de tudo. Fui mal preparado para a vida. 

O comportamento da minha mãe marcou-me muito, não as lições ou os conselhos organizados que não saberia programar, mas o seu dia-a-dia, o seu repúdio visceral pelas injustiças, a sua condolência pelo sofrimento alheio, a sua necessidade de ser útil, de ajudar o próximo e o distante, a sua benévola compreensão das fraquezas estranhas. Ela devia ter-me ensinado a ser cínico, a ser violento, a não ter escrúpulos, a saber aproveitar-me das pessoas e das situações e de tudo isso tirar proveito. Devia-me ter ensinado a ser como toda a gente, a pôr os meus interesses acima de tudo, a dissimular, a mentir, a atropelar o direito dos outros, a impor a minha vontade, a exercer o meu domínio. Ela, coitadinha, não teve culpa, não sabia educar para a vida nem estava a pensar nisso, mas mesmo que ela morresse quando me deu à luz eu tinha que ser parecido com ela. Está tudo nas células, na irresponsabilidade das células que já tinha em mim. (…)

Eu digo “pobre de mim” como diria pobre do pobre que está sentado à soleira da porta a apanhar sol e a coçar as costas. Mas ele, o pobre, ainda é feliz porque eu ao vê-lo desejo ajudá-lo, e eu era um ser indefeso que ninguém pensava em ajudar. Nunca tive vocação nem jeito para viver, inclinação elementar que qualquer ser, mesmo sem ser humano, possui por natureza. Tão incapaz, tão estranho, tão desajustado que ainda hoje, aos oitenta e um anos, me sinto tão surpreendido de viver como aquele frágil menino de um ano a quem a irmã mais velha amparava, no retrato, para que não caia do alto da coluna de madeira em que o poisaram. (…) 

Os meus sentimentos para com os outros não são de repulsa, mas (imaginem!) de pena, de piedade. Tenho pena de ver as pessoas presas aos seus preconceitos, às suas ansiedades, aos imperativos da sua hereditariedade, ao peso das tradições, aos condicionamentos do ambiente físico e humano em que nasceram ou em que vivem. Tenho pena de todos, e também tenho pena de a ter, porque as pessoas preferem ser odiadas a suscitarem pena. No fundo somos todos irresponsáveis, tanto eles pelo que fazem como eu por reparar nisso. (…) A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver…”

domingo, 17 de maio de 2015

Estante de Leitura – A cidade e as serras

 "E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que a Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca, – dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles como numa festa ou numa glória. (…) De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado. embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde.  (…) Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadas do tédio, e lhe gritara o seu belo ambula, caminha! – também certamente lhe gritara et lege, e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. (…) Aquele grande mar da Odisseia – resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas Divinas -, exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. (…) E meio entorpecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca… (…) Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal."