quarta-feira, 27 de junho de 2018

Estante de leitura – Criação (VIII)

"E ao oitavo dia…

A caneta tombou sobre o papel. Exausta. Inanimada.
Numa sala vazia, luz escassa, já não se ouvia o rogaçar da ponta da caneta no papel. Ela jaz ingloriamente na sombra projetada pelo meu corpo também ele inerte, esgotado, imenso. Nenhuma glória se alcança sem perdas.
Eu, num ser agora completo, tenho somente um mundo inteiro.
Um mundo inteiro, com cidades inteiras, com pessoas inteiras.
Peso o peso desse todo o mundo. Das cidades dos meus desacertos, das minhas hesitações, dos meus abandonos. Peso também o peso leve das cidades felizes. Das cidades dos meus feitos excelsos, dos gestos largos. Da cidade da partilha. Da cidade das coisas certas. Embora distantes, existem caminhos entre elas. Há rios. E onde há rios, tenho pontes entre elas.
Peso o peso dos meus habitantes. Dos que perderam e dos que ganharam. Todos os que nasceram dos meus atos mais ponderados ou dos meus atos mais irrefletidos.
Tenho dentro de mim todas essas cidades e pessoas. E moro em todas elas também. E sou todas elas e cada um dos seus lugares. Moro e sou cada um desses lugares que tenho em mim. E sou caminho e pontes entre elas.
Amei mais. E sou todos aqueles que amei. Amei menos. Morri-me em todos aqueles que esqueci.
E ao oitavo dia descansei. Do cansaço de ser eu, em tantos eus, em tantos dias. Em tantos sítios. Do cansaço de descobrir… de criar, de criar-me. De me descobrir. E continuar…
Agora vou ficar aqui. Fazendo sombra. Arrefecendo a terra quente onde repousa a minha caneta de escrever-me. Vou ficar-me a ouvir o mundo mover-se. Sem que o ruído do mundo a mover-se me incomode. Sem deixar-me estontecer pela rotação da terra sobre o seu próprio eixo.
Vou deixar-me apenas ser, deixando-me cegar pelo nascer do dia. Deixando-me esmagar pela noite quando cai. Ser feliz, sem enlouquecer pelo som da vida a gotejar em mim.
Para no fim não saber responder quem sou. Para responder apenas sou eu. Desconsiderando que sou apenas um mundo inteiro de mim. Pois esse meu mundo inteiro, mais não será que uma sala de espelhos. O mundo numa sala de espelhos gigante. Onde os reflexos refletem os seus reflexos. Misturam-se, repetem-se, formam-se e disformam-se até não se saber mais qual o espectro original. O meu ser primeiro. O eu que nasceu único e inocentemente feliz. Até se esquecer."

Armanda Azevedo, “Dia 8 – Descansar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – m-ban

sábado, 16 de junho de 2018

Estante de leitura – O céu que nos protege

"Quando abriu os olhos soube imediatamente onde se encontrava. Baixa, no céu, estava a lua. Embrulhou o casaco à volta das pernas e tremeu um pouco, sem pensar em nada. (…) A areia era suave, mas o frio penetrava através das roupas. Quando sentiu que não podia continuar a suportar os arrepios, arrastou-se para fora da árvore onde se abrigava e pôs-se a andar para trás e para diante em grandes passadas na esperança de se aquecer. O ar estava morto; nenhuma aragem, apenas o frio a crescer minuto a minuto. Começou a afastar-se para mais longe, mastigando pão enquanto caminhava. Sempre que regressava ao Tamariz sentia a sensação de deitar-se debaixo dos ramos e dormir. Todavia, quando surgiu a 1ª luz da alvorada estava completamente desperta e quente.

A paisagem do deserto é sempre mais bela na semi - claridade da aurora ou do crepúsculo. Não existe o sentido da distância: uma crista próxima pode ser a de uma montanha ao longe, cada pormenor, por mais pequeno que seja, pode adquirir a importância de uma variante maior sobre o repetitivo tema do campo.

A chegada do dia promete uma mudança; só quando o dia se abre completamente é que o observador suspeita que é o mesmo dia que regressa uma vez mais – o mesmo dia que há muito se vive, sempre e sempre, a mesma luz ofuscante e purificada pelo tempo. Kit respirou profundamente, olhou à volta para a linha suave das pequenas dunas, para a vasta e pura luz que se elevava atrás da orla mineral da hamada, para a floresta de palmeiras ainda imersa na noite, e soube que não era o mesmo dia. Mesmo quando se abriu completamente de luz, mesmo quando o sol imenso se ergueu e a areia, as árvores e o céu adquiriram gradualmente o seu aspecto habitual do dia, não teve dúvidas de que apesar de tudo isso, ali estava um novo dia, absolutamente único."

Paul Bowles. (2017). O céu que nos protege. Lisboa: Quetzal, páginas 279-280.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A gente se acostuma…

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colansanti, "Eu sei, mas não devia". Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1996. Imagem: © Luís Godinho 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Estante de leitura – Criação (VII)

  "Hoje persegui um telhado…. Hoje persegui um telhado…
  Queimava com o resto de um cigarro alguns pensamentos, daqueles que costumam doer e olhava o que existe do lado de fora da minha janela. Lá, rasgando a linha por cima de todas as coisas que meus olhos alcançavam, chamava-me especial atenção um telhado.
   Todos os telhados são telhados vermelhos, iguais aos desenhos que pintávamos, com lápis de cera. Pintávamos telhados vermelhos em folhas brancas assentes nas mesas gastas da escola primária. A folha ganhava o relevo da madeira velha, a madeira velha ganhava alguma cor vermelha do lápis de cera, a cera deixava nos dedos o cheiro igual ao da missa de domingo de manhã.
  Este telhado era um telhado cor de dia de chuva. Não havia nele o calor da recordação dos nossos desenhos de meninos.
  Este telhado apontava austeramente para o céu. Este telhado tinha janelas a toda a volta. Este telhado, certamente, era habitado por um qualquer ser que eu teria sido capaz de inventar com todos os pormenores e em toda a sua existência, aos meus primeiros anos de idade, quando ainda pintava telhados vermelhos na mesa gasta da escola primária.
   Os meus dedos hoje cheiram a cigarros fumados continuadamente.
Hoje eu já não sei qual o cheiro das missas ao domingo de manhã. Já não sei se há daquela brisa que nessas manhãs me tocava o rosto e me fazia sorrir, enquanto fazia todo o caminho com a minha mão apertada dentro da mão da minha mãe. Também já não sei se existem ruas iguais às ruas por onde caminhávamos. Nessas ruas, que começavam na porta de minha casa e iam para todos os lugares, cabia toda a minha curiosidade. E como eram longe todos os lugares e como proporcionavam aventuras sempre novas! Mesmo que o caminho demorasse apenas dois minutos.
   Desci as escadas e saí para a rua a partir da porta da minha casa de hoje. A rua que começa na porta da minha casa de hoje apenas vai dar a uma outra rua. As ruas hoje continuam grandes, não por terem capacidade de guardar a curiosidade de uma criança, mas simplesmente porque me cansam. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é medido em tempo. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é medido em passos. Hoje o que demoro de um lugar ao outro não é preenchido por aventuras. Hoje o que demoro de um lugar ao outro é preenchido por pensamentos… daqueles que costumam doer."

  Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem: © – m-ban 

sábado, 28 de abril de 2018

Estante de Leitura – Criação (VI)

"Viajo no tempo nos lugares por onde já passei com ela. Repetindo-os. Todas as vezes que passo nesses lugares, é sempre o mesmo dia. É sempre o mesmo lugar com as mesmas pessoas, com os mesmos cheiros, com a mesma chuva, o mesmo sol, a mesma noite. E ela é diferente. E eu sou diferente. Porque eu sou eu hoje e porque ela é ela hoje. Só o lugar é o mesmo, igual ao lugar do tempo primeiro de quando estivemos lá. 
Nós continuamos em todos os lugares onde já estivemos. Nas ruas dou os mesmos passos, coordenados com os passos dela. Às vezes, num passo atrás para conseguir ver todos os passos dela e percorrê-los, na certeza de lhe chegar. Os nossos passos continuam nas calçadas, nos caminhos. Havemos de ter muita idade e passar pelos mesmos sítios de ontem. E os sítios serão os velhos sítios ainda que novos. E nós seremos novas pessoas ainda que velhas. 
    Os mesmos passos, os mesmos gestos, de todos e dos mesmos eus. Os mesmos punhais cravados em todos os peitos, na esperança de sentir um bater de coração nas mãos. O mesmo morder de todas as bocas na procura de sangue vivo. O mesmo rasgar a pele para encontrar um corpo. O meu, o dela, o nosso… o mesmo. 
   Aprendo a fazer o mínimo barulho possível. Aprendo a suster o ar nos pulmões e manter o peito cheio, imóvel. Fecho os olhos e espero ouvi-la chegar. 
   Oiço-a chegar no vibrar desafinado dos sons extrínsecos. 
  Oiço-a chegar no toque preciso dos passos na calçada. Oiço-a chegar no ranger sinistro das portas que se abrem. 
  Oiço-a chegar na luz ténue da manhã. Oiço-a nas silhuetas de cor. 
  Oiço-a chegar num riso, num abraço, numa vontade tão grande de a ouvir chegar. 
  Oiço-a chegar quando chego, quando parto, quando fico, quando espero… oiço-a chegar sempre que desisto… e sempre desisto de desistir de a ouvir chegar.
  Aprendo a fazer o mínimo de barulho para que não me oiça a ouvi-la chegar. Consigo suster o ar nos pulmões, suspender os sinais de vida e viver apenas o momento de a ouvir chegar. Consigo manter o peito cheio dela. Imóvel, perpétuo, o instante no meu peito ao ouvi-la chegar.
 Já não sei ser um só. Ela chega e sou já muitos num ser multiplicado. Repetido."

Armanda Azevedo, “Dia 6 – Repetir”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – Rafael, A escola de Atenas, renascimento italiano.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Estante de leitura – Criação (V)

"O chão é feito de folhas. O chão é feito de folhas de papel. Ela vive dentro de um caderno. E as folhas do caderno, que são chão e paredes de casa, estão pintadas de letras. E as letras têm a cor da tinta dos olhos dela. E a cor da tinta das letras que pintam o chão e as paredes do caderno que é a casa, é escura quando os dias são claros. E a cor da tinta das letras que pintam o chão e as paredes do caderno que é a casa, é clara quando os dias são escuros. Ela sabe ser mais feliz dentro do caderno. Debaixo do telhado de sua casa, mora ela e a felicidade que ela sabe acontecer.

     Ela deixa-me a casa nas mãos. Consigo saber que ela está em casa, quando passo os dedos pelas folhas finas de papel sulcadas pelo aparo da caneta. Por ter a sua casa nas mãos, não sei dizer quando ela deixa de estar aqui, deste lado de fora. Permanece dentro das paredes de papel, mas deixa de aparecer dentro das paredes de pedra. Deixa de aparecer dentro das paredes de éter. Deixa de aparecer dentro das paredes de pele. Não consigo ver quando sai. Eu apenas estou lá, dentro das paredes de pele, dentro das paredes de pedra, dentro das paredes de éter, a espreitá-la por dentro das paredes de papel, por dentro das minhas mãos.
      Ela é sempre o lado bonito de todas as coisas. O lado que brilha.
O lado sem fumos, límpido. Mesmo quando não sorri. Ela tem livros abertos na sua cabeça. Livros como sóis dentro da cabeça. Sabe sobre tantas coisas. Conta-me segredos. Ela sabe todas as coisas sobre mim também. Adivinha-me.
     A mim falta-me tamanho para a poder conhecer e adivinhar. A mim sobra-me realidade para não ter medo. E o medo é névoa. Não existem auroras na minha cabeça. Auroras fortes. Deviam nascer sóis na minha cabeça. Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes.
Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes que limpassem a névoa. E assim, sem névoas, eu teria conseguido ser só ela. Assim, sem névoas, teríamos sido só uno dentro e fora das paredes de papel.
     Mas fico-me apenas pela veneração. Sem chegar a um entendimento pleno da sua realidade, sem perceber a magnitude do que acontece. Não a vejo sair. Não a vejo chegar. Não a vejo ficar em mim. Pertenço-lhe sem me pertencer.
     Sou ela num eu multiplicado."

Armanda Azevedo, “Dia 5 – Multiplicar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem – ©: m-ban

terça-feira, 3 de abril de 2018

Estante de leitura – Silêncio (II)

 


"P
RÓ – MEMÓRIA. Uma criança folheia um álbum de fotografias tiradas longe. Uma a uma, fixando-as com a atenção da primeira vez, reconhece o mundo da sua vivência escassa, da sua curta vida. Reconhece o mundo, ainda antes que ele se povoe de inúmeras coisas, porque o ser tem horror ao vazio que é o império da alam nua, tábua primordial onde se imprimem todas as sensações. Esta terra póstuma que as fotografias representam é, para a criança, uma terra de antes, uma paisagem em construção, um mundo que tem, aos seus olhos, a força brutal de uma revelação. Vamos, como crianças, por este sonho trazido de longe, acreditando que esta é a radiografia da nossa exaustão, o retrato em negativo da abundância. Escassez.

Silêncio: João Francisco Vilhena e Pedro Oliveira. Lisboa: Penguin Random House, 2017. 
Imagem: © – INCF (Parque nacional Peneda-Gerês)