quinta-feira, 30 de julho de 2026

Os Livros

"O livro é um dos objetos raros, por onde se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos aos critérios da econometria. O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores.

 


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Estante de leitura - acolher

 "
(…) O dia está quente, luminoso. com manchas de sombra e uma luz esverdeada súbita ao longo da estrada. (…) Aqui e ali, o azul está esborratado com nuvens, mas, no geral, é uma mistura estonteante de céu e árvores atravessados por cabos de eletricidade em cima dos quais, de vez em quando, se veem pequenos bandos acastanhados de pássaros evanescentes.
E os dias vão passando. Estou sempre à espera de que algo aconteça, que a descontração que sinto chegue ao fim: acordar numa cama molhada, fazer alguma asneira, uma gafe grande, partir algo, mas cada dia que passa é igual ao anterior. Acordamos com o nascer do sol e, ao pequeno – almoço, comemos ovos preparados de uma maneira ou de outra, acompanhados com torrada e marmelada. (…)
Uma Lua enorme brilha sobre o pátio, delineando o nosso trajeto até ao caminho de acesso e depois ao longo da estrada.

O Kinsella dá-me a mão. Assim que ele o faz, ocorre-me que o meu pai nunca me segurou a mão, e uma parte de mim deseja que o Kinsella ma largue, para que eu não tenha de sentir isto. É um sentimento complicado, mas, à medida que continuamos, começo a sentir-me mais à vontade e aceito a diferença entre a minha vida em casa e aqui. Ele dá passos mais pequenos, para que possamos caminhar lado a lado. Penso na mulher na casa pequena, na maneira como caminhava e falava, e concluo que as pessoas são todas muito diferentes. (…)
«Às vezes acontecem coisas estranhas – continua ele. – Esta noite também te aconteceu uma coisa estranha, mas a Edna não fez por mal. É demasiado boazinha, ela. Está sempre à procura do que há de melhor nas outras pessoas, e, às vezes, a sua maneira de o encontrar é confiando nelas, esperançosa de que não a desiludirão, só que às vezes desiludem.» (…) “

Tudo nessa noite me parece estranho: visitar um mar que sempre ali esteve, vê-lo e senti-lo e temê-lo na meia-luz, e ouvir este homem dizer coisas sobre cavalos no mar, sobre a mulher dele confiar em pessoas para saber em quem não confiar, coisas que não compreendo muito bem, coisas que talvez nem sejam para os meus ouvidos.
Continuamos a andar até alcançarmos uma zona onde os penhascos e as rochas se estendem até à água. Agora que não podemos continuar em frente, temos de voltar para trás. Talvez o caminho de regresso me ajude a compreender o passeio até aqui. Aqui e ali , cintilam conchas lisas e brancas deixadas pelas ondas. Baixo-me para as colher. Sinto-as suaves e limpas e frágeis nas minhas mãos. Damos meia-volta e continuamos ao longo da praia, parecendo percorrer uma distância maior do que aquela que atravessámos até alcançarmos o sítio onde já não havia passagem, e então a Lua desaparece atrás de uma nuvem meio escura, e deixamos de ver o caminho. Nessa altura, o Kinsella deixa escapar um suspiro, para e acende a lanterna. (…)

Quando a Lua torna a parecer, ele desliga a lanterna e, sob a luz do luar, encontramos facilmente o caminho que fizemos desde as dunas. Quando chegamos ao cimo, ele não me deixa calçar os sapatos, e em vez disso calça - mos ele. Em seguida, calça-se e aperta os atacadores. Depois ficamos ali parados, a contemplar a água.
– Estás a ver, agora há três luzes, quando antes só havia duas.
– Olho para o mar. Ao fundo, as duas luzes continuam a piscar como antes, mas agora com outra luz, essa fixa, brilhando no meio delas.
– Consegues vê-la? – pergunta-me.
– Sim – respondo. Está ali.
E é então que ele põe os braços à minha volta e me puxa para um abraço, como se eu lhe pertencesse. (…)
Agora que sei que tenho de voltar para casa, quase me apetece ir, só para despachar a coisa. (…).
A mulher dá-me uma mala de couro castanha.
– Podes ficar com esta coisa velha- diz-me . – Nunca vamos a lado nenhum, e nunca lhe dou uso.
Dobramos todas as minhas peças de roupa e guardamo-las dentro da mala, juntamente com os livros que comprámos na Webb’s em Gorey: Heidi, O que Katy fez a seguir, A Rainha da Neve. No início, vi-me aflita com algumas das palavras maiores, mas o Kinsella apontava-me cada uma delas com a unha, com grande paciência, até eu adivinhar, ou quase a adivinhar, e depois comecei a fazê-lo sozinha, até já não precisar de adivinhar, e li tudo até ao fim. Foi como aprender a andar de bicicleta; senti-me a arrancar, senti a liberdade de ir a sítios onde não poderia ter ido antes, e foi muito fácil.

Keegan, Claire. (2023). Acolher. Lisboa: Relógio D ´Agua.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Estante de leitura - Os meus dias na Livraria Morisaki

 “Quando mais tarde, chegou o meu tio, encontrou-me ainda inflamada. Como estava habituada ao meu acolhimento morno, ficou pasmado.

– Este livro é belíssimo – disse eu, mostrando-lhe Até à Morte de uma Rapariguinha.
O seu rosto iluminou-se, parecia uma criança que acabara de receber um presente de aniversário maravilhoso.
– É verdade! Que bom que também aches – exclamou, todo entusiasmado.
– Sim, é mesmo um belo livro. Como posso dizer… Prendeu-me.
Irritava-me não conseguir explicar melhor. A expressão “prendeu-me” não transmitia, nem de perto, nem de longe, a ideia do alvoroço interior que aquele livro provocara em mim.
– É fantástico ouvir-te dizer isso. E, ainda por cima, foste ler um autor fora de moda como Murō Saisei, parabéns.
O tio estava tão feliz que também me contagiou.
Então, começámos a falar do livro e assim ficámos durante algum tempo. Eu estava contente por ter finalmente algo em comum com alguém. Mesmo que fosse o meu tio, aliás, estava emocionada precisamente porque se tratava de uma pessoa como ele.
As situações inesperadas abrem-nos portas que nem sequer imaginávamos. Era mesmo assim que me sentia.
E, de facto, a partir daquele momento, comecei a ler um livro atrás de outro. Era como se a sede de leitura, há muito adormecida dentro de mim, tivesse explodido de repente.
Tentava saborear os livros que lia, um de cada vez, devagar. Tinha todo o tempo do mundo, e, quanto aos livros, não corria o risco de ficar sem exemplares.
Nagai Kafū, Jun’ichirō Tanizaki, Dazai Osamu, Haruo Satō, Akutagawa Ryūnosuke , Uno Kōji… Nomesde que já ouvira falar, mas dos quais nunca lera nada, ou que me eram completamente novos, não importava: se me despertavam a curiosidade, pegava neles e lia-os avidamente. E quantos mais lia, mais queria ler.
Era a primeira vez que viva uma experiência tão maravilhosa. Quase parecia que desperdiçara anos de vida.
Deixei de dormir horas e horas, já não sentia essa necessidade. Ao invés de me refugiar no sono, quando o meu tio me substituía, ia a correr ler num café ou no meu quarto.
Aqueles livros velhos escondiam histórias, para mim, inimagináveis. E não me refiro apenas àquilo que contavam. Em cada um encontrei vestígios do passado.
Por exemplo, em Paisagem de Uma Alma, de Kajii Motojirō, li:

“O que significa observar? Significa transferir para um objeto parte da sua alma, se não a sua totalidade.

Alguém a ler esta frase, devia ter-se emocionado e sublinhara-a a caneta. Eu, que também me emocionara, senti uma afinidade com aquele desconhecido e fiquei feliz.
Aconteceu-me também encontrar flores secas usadas para marcar a página onde se parara. Quando acontecia, cheirava-as e fantasiava sobre quem, quando e em que estado de espírito as deixara entre aquelas páginas amarelecidas.
Eram encontros que ultrapassavam as barreiras temporais, apenas possíveis através dos livros velhos. E assim comecei a afeiçoar-me à livraria Morisaki, que estava repleta de livros velhos. Poder passar horas naquele pequeno mundo sereno parecia-me um privilégio.

Yagisawa, Satoshi. (2023). Os meus dias na livraria Morisaki. Barcarena: Editorial Presença

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Estante de leitura - Rebeldes magníficos

 Entre 1794 e 1799 um brilhante grupo de pensadores (Caroline Böhmer-Schlegel-Schelling, Joahann Gottlieb Fichte, Johann Wolfgang von Goethe, Georg Friedrich Hegel, Alexander von Humboldt, Novalis, Friedrich Schelling, Friedrich Schiller, Friedrich Schlegel, Wilhelm von Humboldt) juntou-se na cidade de Jena, na Alemanha e nela construiu uma revolução, a partir da invenção do eu, do livre-arbítrio e de uma nova ideia de relação do humano com o natural. O eu e o livre-arbítrio que estiveram na base do seu pensamento e que colocou de um modo determinante a escolha sobre liberdade e moralidade.

Continuamos a ter de fazer essa escolha. Encontrar na vida de cada um o seu significado mais autêntico, forma de compreender os outros e estar num mundo social e cultural foi a sua grande oferta para outros tempos. Com o grupo de Jena podemos voar no pensamento do que pode ser esse eu interior, pois eles deram-nos asas para essa possibilidade. Como o usaremos é uma questão que igualmente nos deixaram, nessa visão destacada por Novalis que liberdade e amor são uma e a mesma coisa”. Uma ideia para refundar outra forma de pensarmos a vida e o mundo.

Um livro deslumbrante sobre um grupo fascinante que mudou o modo como podemos ver o mundo.

“O Iluminismo iluminara de facto, mas esta nova abordagem racional também criara um certo distanciamento em relação à natureza e excluíra os papéis do sentimento e da beleza. A natureza tornara-se algo que era investigado a partir de uma pretensa perspetiva objetiva. Por exemplo, a luz já não era apreciada pelo seu jogo caleidoscópio de cores iridescentes, dizia Novalis, mas pela sua refração e “obediência matemática”; daí a sua elevação à própria palavra “Iluminismo”.

Era por isso que os alunos de Schelling gostavam tanto do seu jovem professor. Ele reunia o que a revolução científica separara: a natureza e a humanidade. Por mais que os cientistas observassem, calculasse e experimentassem, havia algo emocional, algo visceral e talvez inexplicável em redor da ligação da humanidade com a natureza.

Seja como for que a sintamos, a natureza pode acalmar, curar ou encher-nos apenas de alegria. Schelling deu-nos a explicação filosófica. E ao fazê-lo, a sua filosofia de unicidade tornou-se o batimento cardíaco do Romantismo.”

Wulf, Andrea. (2023). Rebeldes Magníficos – Os primeiros Românticos e a Invenção do Eu. Lisboa: Temas e Debates.

sábado, 13 de julho de 2024

Estante de leitura – o olho e o espírito

 “A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Para si estabelece modelos internos das coisas e, operando sobre estes índices ou variáveis, as transformações permitidas pela sua definição só se confrontam de quando em quando com o mundo atual. Ela é, sempre foi, esse pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, essa opção de tratar qualquer ser como “objeto em geral», ou seja, ao mesmo tempo como se não fosse nada e se encontrasse, no entanto predestinado para os nossos artifícios

É necessário que o pensamento da ciência – pensamento de sobrevoo, pensamento do objeto em geral – se coloque de novo num aí prévio, in locus, sobre o solo do mundo sensível e do mundo trabalhado. Tal como existe na nossa vida, para o nosso corpo, não esse corpo possível em relação ao qual é permitido defender que se trata de uma máquina de informações, mas este corpo atual que eu chamo meu, a sentinela que se mantém silenciosamente sob as minhas palavras e os meus atos. É necessário que, com o meu corpo, despertem os corpos associados, os «outros», que não são meus congéneres, como diz a zoologia, mas que me assombram, que eu assombro, com os quais comungo um ser único atual, presente, como nunca nenhum animal assombrou os da sua espécie, do seu território, ou do seu meio. Nesta historicidade primordial, o pensamento apressado e improvisador da ciência aprenderá a aprofundar-se nas coisas enquanto tais e em si mesmo, tornar-se-á de novo filosofia…
Ora a arte e especialmente a pintura bebem nessa camada de sentido bruto da qual o ativismo nada quer saber. Elas são mesmo as únicas a fazê-lo em toda a inocência. (…) Ao escritor, ao filósofo, pede-se conselho ou opinião, não se admite que tenham o mundo em suspenso, exige-se que tomem posição, não podem declinar as responsabilidades do homem falante. O pintor é o único a ter o direito do olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação. Dir-se-ia que perante ele as palavras de ordem do conhecimento e da ação perdem a sua virtude. (…) Ele [o pintor] aí está, forte ou fraco na vida, mas incontestavelmente soberano na sua ruminação do mundo, sem outra «técnica» senão a criada pelos seus olhos e pelas suas mãos à força de ver, à força de pintar, obstinado a tirar deste mundo, onde soam os escândalos e as glórias da história, telas que nada acrescentarão às cóleras e às esperanças dos homens e ninguém se queixa. Que ciência secreta é esta que ele possui ou procura? Esta dimensão segundo a qual Van Gogh quer ir «mais longe»? Este fundamental da pintura, e talvez de toda a cultura.”

O olho e o espírito / Merleu-Ponty. Pontinha: Vega; Imagem: “Senecio” / Paul Klee, 1922.



segunda-feira, 6 de novembro de 2023


"Iremos juntos pela praia
Embalados no dia
Colhendo algas rochas e corais
Que na praia deixou a maré cheia

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e de conhecimento (1)

Sophia foi, é alguém que é uma fonte de inspiração para nos fazer entrar num mundo, um reino muito especial. O reino de palavras, de ideias tecidas na procura de uma claridade, de uma luz que antecedam as sombras do mundo. As palavras como ferramenta para conhecer a claridade da azul-respiração das coisas, entre o vento e o mar, na construção de um cosmos que emerge do caos e nos dá o essencial da essência humana.

Sophia é uma das grandes figuras da literatura portuguesa dos últimos cem anos. Sophia de Mello Breyner Andresen, que fez da sua vida um encantamento por esse amor antigo e futuro de todas as ideias, concedeu-nos as palavras da pura claridade, o dia inicial criado do caos para nos harmonizar com o real. Sophia é um nome, uma paisagem, uma forma de olhar que tem inspirado sucessivas gerações a descobrir no real, uma forma de divindade por onde a sua palavra respira assombrada pela sua essência de simplicidade. Deu-nos uma respiração de coral e nela vemos a tão difícil, mas tão necessária, dimensão da autenticidade nos gestos e nas palavras.

 As palavras são, em Sophia, não uma descrição planeada ou imaginada do real, mas sim a descrição do olhar, o concreto onde sobressai a nossa dimensão humana. Com a sua arte poética e narrativa, temos uma escrita muito preocupada com os limites da existência humana, de onde emerge em simplicidade um encontro com a Natureza e em especial com o mar. Encontros de natureza diversa, de onde emergem os gregos e a sua aventura pelo conhecimento da inteligibilidade do mundo, os seus mitos. Por esse mar de casas brancas, onde o sonho, a descoberta de novos horizontes, o puro descobrimento, na ideia grega (altheia) de dar ao real um significado divino.

Sophia deu-nos uma obra literária marcada pela poesia, pelos contos, onde fez nascer um imaginário de conhecimento das imagens que nos levam ao real, à procura de uma essência do humano.

Da sua obra, destacam-se a poesia, como forma primeira de uma expressão da palavra, na respiração do mundo, e os contos, em que muito do seu imaginário foi levado a crianças mais jovens. Na poesia, publicou diversos títulos, como, No tempo dividido, Coral, Navegações, Ilhas, O nome das coisas, onde o deslumbramento pela palavra, a extrema sensibilidade e clareza tentam encontrar campos e horizontes de felicidade, numa procura de uma dimensão humana que se pretende afirmar acima de qualquer tempo.  

A luz que ela nos deu é clara e transparente como as manhãs nascidas de um tempo novo, não numa dimensão política, da usura de títulos, mas a de uma nobreza feita da que procura dialogar consigo própria, a da manhã branca, onde a claridade emerge de um dia alvo, desenhado e vivido de possibilidades que o real nos concede. As suas palavras deram-nos uma estética do maravilhoso, de quem se espanta pelo assombro do mundo, pela sua beleza e injustiça, num compromisso autêntico, livre e sublime, com a respiração que nos pode fazer herdeiros da maior inteireza possível. 

Sophia, viveu ela própria o sonho, aspirou por ele, lutou por ele, sonhou com esse dia novo, com essa construção substantiva do tempo, das ideias nobres, simples, da reconquista apenas por si, pelo movimento, pela graça, retirando as máscaras e desbravando no caos, a pureza inicial do homem. Sonhou com esse movimento de levitação, o sonho que uma “revolução” permitiria. Não a de ideias passadas, de caminhos de glória, mas a escrita no coração, a partir da página em branco, onde cada respiração e olhar vê o dia e o mar em absoluto maravilhamento.

 Conduziu-nos pela maresia, falou-nos dessa primeira liberdade, correu com o vento para que nós também sentíssemos a questão inicial, o sopro vivo da palavra comprometida. Infelizmente, nós não a compreendemos e temos muitos exemplos desta destruição pelo valor da palavra, onde a construção de uma comunidade se vê isolada da sua substância mais vital. Resta-nos com ela absorver o seu maior legado. O coração e as palavras que são sempre novas todos os dias, pois elas procuram construir um equilíbrio. 

Um equilíbrio que se sobreponha aos labirintos e ao caos, desvendando as sombras que no real nos afastam da essência. Palavras, como instrumentos para podermos abordar os dias, reconquistando um real a esse caos, tantas vezes usado e criado por desleixo e falta de vontade humana. Sophia abriu as palavras e com elas a realidade a nós, abrindo o Pórtico que ilumina cada homem que recebe esse bem sagrado que é a vida. As suas palavras são uma permanente iluminação, por onde se busca a mais perfeita claridade. Sophia criou um reino, uma linguagem que se exprime na sua Poesia, como uma forma de tornar possível, de fazer nascer um real onde se fragmentam os nossos passos de sol.

 (1) - Andresen, S. de M. B. ( ....) No tempo dividido. Alfragide: Caminho. 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Estante de leitura - Emily Dickinson


“Não sou Ninguém! Quem és tu?
És um – ninguém – Também?
Há, pois, um par de nós?
Não fales! não vão eles – contar!

Que horror – o ser – Alguém!
Que vulgar – como a rã –
Passar o Junho todo – a anunciar o seu nome –
No charco de pasmar!” (1)

“Se eu já não estiver viva
Quando os Piscos voltarem,
Deem ao do Peitilho de Sangue
Uma migalha por minha Memória.

E se eu não vos puder agradecer
Por estar já tão adormecida,
Sabei que ainda assim o estou tentando
Com lábio de Granito!” (2)

“Hei-de sempre cantar!
Por mim passarão pássaros
A caminho de Climas mais de Sol –
Cada um – com seu anseio de Pisco –
Eu – com o meu Peito-Ruivo –
E o meu Rimar –

Mais tarde – quando ocupar o meu lugar no Verão –
Hei - de trazer muito mais cheio tom –
As Vésperas – mais doces que as Matinas – Senhor –
Só da Tarde a semente – é a Manhã – (3)

(1) “I’m nobody! Who are you?”; (2) – “If I shouldn’ t be alive”; (3) – I shall keep singing!”

in Duzentos Poemas / Emily Dickinson. Lisboa: Relógio D´Água, 2014. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Estante de leitura – As Sibilas – Diálogos em Sfumato

 Um livro nasce dum desejo profundo de relacionamento com aqueles que nos são caros.” Agustina Bessa-Luís, “Os Incuráveis: Revelação e Criação”, conferência, 15.03.1984.

Entre laranjeiras e roseiras, entre a manhã, a tarde e a noite, e um fundo de esmerados cultivos, deu-se um grande combate, um combate que mais parece um exercício de esgrima e não de morte. Cada dia da nossa vida é assim, uma batalha em três andamentos: o acordar, na sua luz branca – das interrogações; caminha-se para a tarde, na sua luz quente-os cães ladram, as vozes alteram-se, passa o carteiro; e depois o fim do dia, o fim do combate – rodam-se os anéis encravados nos dedos inchados, fecham-se as portadas à lua de prata, às vezes um relâmpago ao longe, e adormece-se, talvez. E tudo é nada.
A poesia das paisagens, é a sua história que a alimenta. Há, no entanto, tempos de pousio, uma espécie de morte, de cansaço da natureza. Uma espécie de vingança daqueles que já não as percorrem, e as apagam, até um dia, em que a nova geração as redesenhe e ocupe. Será outra coisa. Ou a mesma, porque a natureza não tem imaginação, nem os homens. (…)
Eram seus encontros, os pássaros saltitantes de galho em galho; as galinhas assustadiças nos quinteiros isolados; o som dos cantares longínquos, e interrompidos, das moças nos tanques-lavadouros; o sino do Mosteiro ou da Igreja do Salvador de Real; o cruzar-se com este e aquele, que paravam a contar os desaires dos negócios e da vida. Agustina aprendeu a ouvir e a falar com todas estas criaturas que faziam parte da Natureza, e que contavam os dias pela sua justa medida de tempo. Sábio ensinamento, esse, que ela levou no seu coração, que é a nossa máquina perfeita, de medir o tempo.
Os veios de água que desciam das minas até ao caminho formavam pequenas pias de agrieiras.
As descrições de lugares e de paisagens, depois, nos seus romances, podem ser destacadas como poemas intemporais, com uma raiz longínqua nos poetas da Antiguidade.
D. Amelinha entrava na feira discretamente e dirigia-se aos feirantes do ouro. Aí, meio encoberta por uma manta suspensa do toldo, sentava-se num banquinho e apreciava, escolhia, negociava, os brincos com turquesas, os cordões de cinco voltas, os anéis de desenho antiquíssimo, onde se vincavam símbolos dos quais se perdera já o significado. Mas lá estavam.
Hoje, imagino esse cenário, num filme de Kurosawa! As mesmas figuras, esfumadas na paisagem; os mesmos gestos repetidos, baloiçados, na rotina diária; o mesmo movimento secular, entre o nascimento e a morte. Tudo era um sonho. Como se à volta da vessada se perfilassem os espíritos do milheiral, encarnados em bonecos de corda, os contadores da história daquela mulher franzina, de olhos amendoados e semicerrados, e de tantos saberes e incumbências.
E a pequena Agustina captava esse sonho, entrava nele, e aprendia as artes.
Ah!… A Sibila é um sonho contado.”

“Às vezes sentava-me no degrau da cozinha, e pensava que não podia haver pacto com os outros, mas sim a renúncia da nossa presença; o auge da despedida” (Agustina, “poema pessoal” (1967), Ensaios e Artigos, 2017).

As Sibilas – Diálogos em Sfumato / Mónica Baldaque. Lisboa. Relógio D` Água, 2022.

sábado, 17 de setembro de 2022

Estante de leitura – Clarissa

“Sentado no banco do jardim, Amaro lê os seus poetas.

As folhas da árvore que lhe dá sombra, desenham arabescos móveis nas páginas do livro.

O jardim é uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, com uma folha de papel de seda levada. pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa se despetala lentamente e as pétalas rolam para o chão. Há pelos canteiros, verdes de todos os matizes. As glicínias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insetos minúsculos de asas coloridas.

Amaro fecha o livro e olha o jardim. Porque será que lhe vem à memória a imagem de Clarissa? Clarissa é parte integrante deste jardim florido e luminosos, Clarissa é como a relva veludosa, como as glicínias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia, menina e moça – olhos abertos para o mistério da vida, alma que amanhece.

Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele – insensato – pensava que a vida estava só nos livros…

Agora é tarde. tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete.

A hora rútila de Clarissa passará também. Amanhã ela se fará mulher de todo. Professora, irá para a sua cidade natal, onde decerto casará com o filho dum fazendeiro rico. Serão muito felizes, terão muitos pimpolhos gordos. Clarissa ganhará fatas carnes, ficará como a tia, será uma esplêndida dona de casa, que há-de saber fazer gostosos doces, e queijos e bolinhos…

Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Põe-se a caminhar dum lado para o outro, mãos às costas, o pensamento solto…

Clarissa! Agora ela é poesia, ingenuidade, ternura, incompreensão, encantamento… Para ela a vida está cheia de surpresas e de atrações irresistíveis. Mas amanhã que virá? Amanhã? A dissolução, a deformidade do corpo e do espírito. Hoje – a menina verde, fresca, risonha. Amanhã – a mulher gorda, senhora respeitável que sabe em que mês devemos plantar couves, que não acredita “nessas bobagens dos poetas”, e que nem sequer há - de saber ensinar aos filhos a mentira bonita dos contos de fadas. Dir-lhes-á com uma voz árida:

– As fadas não existem, nem as varinhas de condão.

Os poetas só dizem mentiras. Vocês devem mas é aprender as quatro estações, a curar bicheira e a dar banho de carrapaticida no gado. Isso é que vocês devem aprender, para juntar dinheiro, povoar a fazenda, comprar mais campo e ganhar prestígio político….

Amaro procura apagar o pensamento mau.

Agora compreende mais que nunca que só na arte a beleza é imortal. Canta-lhe na cabeça o verso de Keats:

A thing of beauty is a joy for ever.

Na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça.

Senta-se de novo, mais sereno.

Mas o momento luminoso de Clarissa ainda não passou. Ela vive aqui na pensão, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente….

E ele a poderá contemplar da sombra… Inspirado em Clarissa, há-de compor ainda muitas músicas frescas e alegres. A canção do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moça. Uma “suite” de cor e movimento que há-de se chamar: “Clarissa amanhece”.

Há-de compô-la em segredo, muito em segredo. Ninguém ficará sabendo.

E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim….”

A thing of beauty is a joy for ever.

Clarissa / Erico Veríssimo. São Paulo: Companhias das Letras, 2005.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Estante de leitura – O Mundo de Ontem

“Criados no silêncio, no resguardo, na calma,
Lançam-nos então ao mundo, de repente; Banham-nos em cem mil vagas.

Tudo nos interessa, muito nos agrada,
Oscila a lama em leve agitação;
Sentimos, e o que temos sentido,
É levado pela corrente
Do colorido turbilhão do mundo.” (Goethe)

“Era tocante a confiança de cercar a vida com uma paliçada sem a menor brecha, evitando assim qualquer golpe do destino, enfermava, apesar de toda a solidez e humildade da conceção de vida, de uma grande e perigosa presunção. No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao “melhor de todos os mundos”. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras, fomes e revoltas, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. agora, porém, era apenas uma questão de décadas até terem sido definitivamente ultrapassados os últimos vestígios do mal e da violência, e a crença no “progresso” ininterrupto, imparável, tinha para essa época a força de uma verdadeira religião; (…)

Hoje é fácil para nós, que há muito tempo riscámos a palavra “segurança” do nosso vocabulário, como sendo uma mera ilusão, sorrir perante a loucura otimista daquela geração cega pelo idealismo e para a qual o progresso da humanidade deveria ter como consequência necessária uma evolução moral igualmente rápida. Nós, que neste novo século [XX] aprendemos a já não nos surpreendermos com nenhuma erupção de bestialidade coletiva, nós, que a cada novo dia esperávamos perversidades ainda maiores do que as doa dia anterior, somos marcadamente mais céticos no respeitante à capacidade de educação do ser humano. Tivemos de dar razão a Freud que via a nossa cultura, a nossa civilização, apenas como uma fina camada em risco de poder ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Tivemos de nos habituar gradualmente a viver sem chão debaixo dos pés, sem justiça, sem liberdade, sem segurança. Há muito que recusámos, na nossa própria existência, a religião dos nossos pais, a sua crença numa elevação rápida e constante da humanidade; a nós, que cruelmente fomos ensinados, parece-nos banal esse otimismo precipitado perante uma catástrofe que, de uma assentada, nos faz recuar mil anos para lá de todos os avanços da humanidade. Mas mesmo sendo apenas só loucura aquela que nossos pais serviram, nem por isso deixou de ser maravilhosa e nobre, mais humana e mais fecunda do que as palavras de ordem de hoje (…) e consola-me a confiança, herdade de meus pais, de que, algum dia, esta recaída parecerá ter sido apenas um intervalo no eterno ritmo do avanço contínuo. (…)
Quando hoje penso nele [Rainer Maria Rilke], e em cada um dos m

estres que cinzelaram a palavra com uma sublime peça artística de ourivesaria, quando penso nesses nomes venerados que iluminaram a minha juventude como constelações inacessíveis, sou irresistivelmente assaltado pela pergunta nostálgica: será que tais poetas puros, exclusivamente dedicados às formas líricas, voltarão a ser possíveis na nossa época de turbulência e de perturbação geral.(…) aqueles poetas que nada cobiçavam da vida exterior, nem a simpatia das grandes massas, nem condecorações, ou dignidades, ou lucro, que a nada mais aspiravam do que a unir de forma perfeita estrofe com estrofe, num esforço silencioso, porém apaixonado, cada verso impregnado de música, luminoso nas cores, resplandecente de imagens? Eles constituíam uma guilda, uma ordem quase monástica no seio dos nossos ruidosos dias, eles, deliberadamente de costas voltadas para o quotidiano, eles, para quem nada no universo era mais importante do que o doce som que, apesar de tudo, conseguia sobreviver ao fragor da época, logo que uma rima, ajustando-se a outra, extravasava aquela emoção indescritível, mais leve do que o som de uma folha rodopiando ao vento e, contudo, capaz de tocar as almas mais distantes com as suas vibrações.

Mas como era enaltecedora para nós, jovens poetas, a presença desses homens fiéis a si próprios, como eram modelares estes servidores austeros e guardiões da língua, que só á palavra purificadora concediam o seu amor, à palavra que não tinha a ver com o tempo nem com o jornal, e sim com a durabilidade e com a perenidade (…) ; será que tais almas ainda serão possíveis nos tempo que correm, nas nossas formas de vida que expulsam criminosamente as pessoas do seu recolhimento interior como um incêndio florestal escorraça os animais dos seus esconderijos mais ocultos? (…)

Era sempre a mesma, a eterna corja de todos os tempos que chamava cobardes aos cautelosos, fracos aos mais humanos, e que depois ficava sem saber o que fazer na hora da catástrofe provocada pela sua imprudência. Era sempre a mesma corja, a mesma que escarneceu de Cassandra, em Troia, de Jeremias, em Jerusalém, e nunca consegui compreender tão bem o carácter trágico e a grandeza dessas figuras como nestas horas tão semelhantes às que elas viveram (…) fez com que muitas vezes me questionasse se não seria eu próprio o louco no meio de toda aquela gente com juízo, ou talvez apenas terrivelmente lúcido no meio da sua embriaguez. Sentia-me constantemente tentado a mostrar o endurecimento interior que qualquer forma de poder provoca no indivíduo, o empedernimento de ala que qualquer vitória provoca em povos inteiros, e a contrapor-lhes a força tumultuosa da derrota que rasga na alma dolorosos e terríveis sulcos. Em plena guerra, enquanto os outros, prematuramente triunfantes, ainda demonstravam uns aos outros a infalibilidade da vitória, já eu me lançava no abismo mais profundo da catástrofe e procurava o caminho ascencional. 

(…) quase parece vingança maldosa da natureza, que todas as conquistas da técnica, graças às quais o ser humano concentrou nas suas mãos os seus mais misteriosos poderes, lhe tenham destruído simultaneamente a alma. Não há pior maldição que a técnica tenha lançado sobre nós do que a de impedir a nossa fuga do presente, ainda que só por um instante. Em períodos de catástrofe, as gerações que nos precederam podiam refugiar-se na solidão e no isolamento; a nós, estava-nos reservado ter de saber e de sentir, na precisa hora e no preciso segundo, tudo o que acontece de mal em qualquer ponto do nosso globo; (…) em 1938 a consciência mundial ficou calada ou limitou-se a resmungar um pouco antes de esquecer e de perdoar. (…)

E eu sabia: de novo o passado se ia, de novo ficava reduzido a nada o que fora construído. (…) O sol brilhava em toda a sua força e plenitude. Ao regressar a casa, reparei de repente na minha própria sombra que me precedia, tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente. Durante todo este tempo, ela nunca mais saiu do meu lado, aquela sombra, pairando, dia e noite, sobre cada um dos meus pensamentos; talvez os seus escuros contornos apareçam também em algumas destas páginas. Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, (…) a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”

O Mundo de Ontem – recordações de um europeu / Stefan Zweig. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Estante de leitura – O perfume das flores à noite

 “Nessa noite, quando chego a casa, já estou arrependida da minha decisão. Como se ficar fechada durante uma noite fosse resolver os meus problemas de criatividade. Procuro na minha biblioteca livros sobre a Dogana da Mar ou sobre Veneza. Tenho alguns guias, desprovidos de interesse salvo pela indicação de restaurantes baratos e do funcionamento do vaporetto.

De uma estante tiro um exemplar de Venices de Paul Morand. Abro-o ao acaso e dou com este parágrafo: “Escaparia. Não sabia a quê, mas sentia que o sentido da minha vida se viraria para fora, para outros lados, para a luz. […] Ao mesmo tempo, começou este batimento de um pêndulo que nunca mais me deixou, um gosto, sem dúvida pré-natal, de constrição, a felicidade de viver num quarto exíguo contrariada pela embriaguez do deserto, do mar, das estepes. Eu odiava as cercas, as portas; fronteiras e muralhas ofendiam-me.” Foi assim que também eu sempre vivi. Nesta oscilação entre o chamariz do exterior e a segurança do interior, entre o desejo de conhecer e de me dar a conhecer e a tentação de me concentrar inteiramente na minha vida interior. Toda a minha existência foi atormentada por este conflito entre o desejo de ficar sossegada no meu quarto e a vontade, perpétua, de me divertir, de me roçar nos outros, de me esquecer. Tenho ao mesmo tempo o desejo de me disciplinar, de ficar tranquila e o de me arrancar à minha condição, à minha origem, e de conquistar, pelo movimento, a minha liberdade. Vivo neste desconforto constante: medo dos outros e atração por eles, austeridade e mundanidade, sombra e luz, humildade e ambição.
Por vezes digo-me que, se não falasse com ninguém, se guardasse para mim todos os meus pensamentos, eles não assumiriam a banalidade que lhes descubro quando os partilho com outrem. A conversa é o inimigo do escritor. É preciso ficarmos calados, refugiarmo-nos num silêncio obstinado e profundo. Se me impusesse um mutismo absoluto, poderia cultivar metáforas e e arroubos poéticos como se cultivam flores em estufas. Se me tornasse eremita, veria coisas que a vida mundana me impede de ver, escutaria ruídos que o quotidiano que o quotidiano e a voz dos outros acabam sempre por encobrir. Quando vivemos no mundo, parece-me que os nossos segredos azedam, que os nossos tesouros interiores se embotam, que arruinamos qualquer coisa que, guardada em segredo, poderia ter sido a matéria de um romance. O mundo exterior age sobre os nossos pensamentos como o ar sobre os afrescos murais que Fellini filma em Roma e que se desvanecem no exato momento em que apanham luz. Como se o excesso de atenção, o excesso de luz, em vez de preservar, levasse à destruição da nossa noite interior. (…)
O que não dizemos pertence-nos para sempre. Escrever é jogar com o silêncio, é dizer, de maneira indireta, segredos que na vida real seriam indizíveis. A literatura é uma arte de contenção. Contemo-nos como primeiros momentos do amor, quando nos vêm à mente expressões banais, declarações inflamadas, que nos forçamos a omitir para não estragar a beleza do momento. A literatura consiste numa erótica do silêncio. O que conta é o que não se diz. Em boa verdade, talvez seja a nossa época, e não apenas o meu ofício de escritora, que me impele a desejar a solidão e a calma. Pergunto-me o que teria pensado Stefan Sweig desta sociedade obcecada com a ostentação do eu e com a encenação da própria existência. Desta época em que qualquer tomada de posição nos expõe à violência e ao ódio, em que se espera que o artista esteja de acordo com a opinião pública. Em que se escreve, sob o domínio de uma pulsão, cento e quarenta caracteres. Em O Mundo de Ontem, Sweig faz um retrato cheio de admiração do poeta Rainer Maria Rilke. Pergunta-se aí que lugar reservará o futuro a escritores como ele, que fizeram da literatura uma vocação existencial. Pergunta Sweig: “Não será também exatamente assim esta nossa época, que não permite o silêncio nem mesmo ao que é mais puro, ao que está mais isolado, o silêncio da espera e do amadurecimento, da reflexão e do recolhimento?” (…)
Agora, sozinha e descalça neste museu, pergunto-me porque queria tanto ser fechada aqui. Como pode a feminista, a militante, a escritora que aspiro a ser fantasiar com quatro paredes e uma porta bem trancada? Deveria querer quebrar as jaulas, soprar contra as muralhas até elas estremecerem e caírem. Escrever não pode consistir apenas em retirarmo-nos, em comprazermo-nos com o calor de um apartamento, em construir paredes de tijolo para nos protegermos do mundo lá fora e para não olharmos os outros nos olhos. É também alimentar sonhos de expansão, de conquista, de conhecimento do mundo, do Outro, do desconhecido. Atrás de uma fortaleza, o que poderemos nós cultivar senão a indiferença? estar em paz é uma fantasia egoísta. (…)
Veneza é uma cidade sem terra e sem outra riqueza além do sal. É alimentada pelo que vem de fora, do exterior, do estrangeiro. Vejo nisso o símbolo da minha própria história. É talvez aí que vivo, num lugar que se parece com esta península pontiaguda. Numa alfândega, que é por essência um lugar paradoxal. Nunca abandonei de facto o meu lugar de partida nem habitei de facto no meu lugar de chegada. Estou em trânsito. Vivo num entremundo.”

O perfume das flores à noite / Leïla Slimani. Lisboa: Penguin Random House, 2022.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Estante de leitura – A eloquência da sardinha

«A Leste, o sol queimava os olhos. No azul panorâmico das águas do lago, estendiam-se, de leste a oeste, extensas pinceladas de luz, dançando ao ritmo do suave marulhar. As sardinhas corriam velozes, dispersas na quietude da manhã, refastelando-se com plâncton. Por cima delas, réstias de céu flutuavam à superfície. O rosa pastel diluía-se no azul do dia.

Por baixo, as suas sombras, projetadas para oeste, mergulhavam nas profundezas ainda saturadas de noite.

À distância, os atuns vislumbraram estas sombras dançantes.
A aproximação dos atuns provocou um calafrio. Subitamente, todo o banco de sardinhas se agrupou, organizando-se numa massa compacta e assustada.
Tornar-se um espelho do mar. A sardinha sabia que esta era a única forma de se esquivar do olhar dos atuns. Fundir-se na paisagem, tornar-se um mero reflexo. Todo o banco tinha de adotar de forma sincronizada o mesmo ângulo, de forma a que as escamas prateadas refletissem o azul da água em todas as direções e que eles não as pudessem distinguir do vazio do oceano. Não podiam estremecer, nem permitir que uma nesga de céu se espelhasse na mais ínfima escama: uma partícula de luz poderia trair a sua presença. A sardinha mantinha-se imóvel, desaparecia juntamente com todo o seu banco, num frémito invisível.
Mas, entre os reflexos de mar da sua pele, começara já a desenhar-se num a legião de atuns, alinhados, coordenados e implacáveis. Tarde demais para ter ilusões. O olho triangular do atum já detetara o banco. A sardinha viu os vultos pretos e perfilados, de longas barbatanas, materializarem-se. De súbito, esses vultos mudaram simultaneamente de cor. Os atuns tinham iluminado as suas listas azuis fluorescentes, cujo comprimento de onda ultravioleta está precisamente calibrado para ofuscar os olhos das sardinhas. Deu-se um clarão estonteante.

O ataque dos atuns foi rápido e violento. (…) O banco não cedeu ao pânico. Ofuscadas, atordoadas, as sardinhas sabiam que a sua salvação dependia de se manterem agrupadas, à escuta umas das outras, organizadas, agindo em conjunto, como um só peixe. O grupo desenhava estranhos arabescos e volutas para desconcertar os atacantes, esquivava-se dos seus assaltos, separava-se para logo de seguida voltar a agrupar-se, tentando refletir os raios de sol em todas as direções, para os cegar.
Mas os atuns vinham de longe, tinham viajado noite e dia sem parar; a fome ameaçava-os. Mudaram de estratégia e empurraram a bola de sardinhas para a superfície, para esse muro de céu movediço intransponível. (…) A sardinha, isolada num dos lados, não conseguia juntar-se às outras. Visível e vulnerável, afastada da massa protetora das suas congéneres. A única hipóteses era nadar, sempre em frente.
Os milhares de escamas arrancadas brilhavam no azul como flocos de neve. A sardinha acelerava, com pavor de ser descoberta. No espelho prateado da sua pele, a cena do festim dos atuns foi ficando cada vez mais pequena. Quantas imagens refletidas naquele espelho! Todas essas cenas em que a sardinha se mantivera invisível, e cujas cores se imprimiram fielmente na sua pele. Nadando com todas as suas forças, a sardinha relembrava esses quadros reproduzidos nas suas escamas: as brincadeiras dos golfinhos, o casco dos navios, os rochedos de ilhas longínquas, as estranhas tartarugas do mar… tantos eram os segredos que levava consigo. Mas que iria acontecer a essas histórias? Ela era apenas uma sardinha solitária, muito vulnerável, praticamente condenada a dissolver-se no suco gástrico de um atum. Um pedaço tão ínfimo na cadeia alimentar, uma mera dentada para os predadores que encontraria pelo caminho. Que fazer para que esses relatos dos quais estava impregnada não se dissolvessem no turbilhão dos ciclos do oceano?

A sardinha nadou durante muito tempo, até perder a noção do tempo. Nem sequer reparou que a água à sua volta tinha mudado de cor e que as suas escamas já não refletiam o azul do largo, mas o verde dos herbários e o ocre dos rochedos. Esgotada, vacilou. Ondas desconcertantes empurravam-na para um elemento novo para ela: a terra. Ainda mal se tinha dado conta de que uma rede verde a recolhera do mar, viu-se mergulhada num balde de plástico, decorado com estrelas-do-ar. Foi então que se cruzou com um phar desconhecido, um olhar de criança. E, antes de voltar a partir, milagrosamente salva, rumo à liberdade e aos perigos do mar, decidiu transmitir-lhe algumas das suas histórias e convencê-la a fazer o mesmo.

(…) deixemos estas histórias embalar-nos e inspirar-nos a inventar e partilhar outras tantas. Pois o mundo do mar é como o das palavras: um espaço de liberdade, que deverá manter-se assim. Aqueles que querem refrear as palavras, impor regras à expressão e à linguagem são como aqueles que pretendem erguer barreiras no mar. O oceano é de todos e de ninguém. A imaginação também. Assim, quer sejam uma baleia solitária que fala a sua própria língua ou uma das anchovas coordenadas de um vasto branco; quer sejam um polvo inventivo, uma rémora pegajosa ou um discreto lavagante – cada um à sua maneira, entoemos livremente as nossas histórias.”

A eloquência da sardinha / Bill François. Lisboa: Quetzal, 2021.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Estante de leitura – Cinquenta palavras para Chuva

 «Acordo num jardim.

Alguém deve ter-me carregado até aqui. Consigo cheirar as flores antes mesmo de abrir os olhos. O cheiro de cada flor exótica enche todo o meu corpo. Estou cercada por ele.
Este não é o meu jardim.
Abro os olhos e vejo que é interminável, estende-se para lá do horizonte e até ao infinito. O céu é de um azul prussiano perfeito e as nuvens são gordas e cremosas, como se um pasteleiro as tivesse criado à mão. O sol é brando, banhando tudo com uma suave luz branca.
Sei que este não é um jardim comum. Também sei que estou destinada a estar aqui.
Levanto-me e ponho uma mão em pala sobre os olhos para os proteger da luz. Os cortes desapareceram, como se nunca tivessem existido. Curvo-me ligeiramente e puxo para cima a bainha do meu quimono, que é branco como o alabastro e feito da mais delicada seda. Está guarnecido com pérolas minúsculas e bordado com kiku no hana, crisântemos. Puxo-o até à cintura e passo com os dedos ao longo da pele macia do interior da minha coxa. A minha cicatriz também desapareceu.
Baixo a saia e começo a andar, não sei para onde, mas em frente. Caminho por baixo de árvores com ramos pesados com frutos maduros: romãs e maçãs, bananas e limas, ameixas e alperces, cerejas e frutos cujo nome desconheço. Há molhos de flores vermelhas por entre a erva alta, espalhados como fogos de artifício caídos. Curvo-me para apanhar uma rosa em rons de salmão.
O caule não tem espinhos.
Então, ouço qualquer coisa, um soim suave e perfeito. Não hesito e sigo-o. É como uma canção de sereia. Nunca consegui resistir a isso. Nunca o quereria fazer.
Não me pergunto para onde vou porque estou neste lugar, que obviamente não se destina a olhos mortais. Talvez eu esteja morta. Encosto as mãos à barriga magra e continuo a andar. Se estou morta, não posso dizer que me importo. Este lugar é… o paraíso. E nada me dói aqui. Toda a minha vida, carreguei uma dor abafada dentro de mim, tão constante que mal me apercebi.
Mas apercebo-me agora, porque desapareceu.
Ouço o ruído constante de um riacho murmurante algures nas proximidades, por baixo da canção. Começa a soar-me familiar. Dou por mim a caminhar um pouco mais depressa, numa tentativa de o apanhar. Conheço esta canção. De onde? Levanto a bainha da saia para andar mais depressa. Sinto o piso quente sob os meus pés descalços.
Onde é que eu já ouvi esta canção?
Está a ficar mais alta nos meus ouvidos e o som está a tornar-se mais rico, a lavar-me e a purificar-me de todas as dores que já senti. Agora estou a correr. Corro através de um bosque de árvores cujos ramos se juntam para formar uma auréola por cima da minha cabeça. Corro ao lado de um lago límpido com patinhos a salpicar. Corro até estar num prado com delfínios de um tom roxo profundo que me chegam até à cintura e papoilas vermelhas que parecem sorrir para mim. Faço uma pausa, o meu coração palpita no meu peito, os meus olhos vagueiam freneticamente para encontrar a fonte da música. Há uma árvore um pouco mais à frente. Viro o pescoço para ver melhor e percebo que é um pessegueiro.
Então, sei.
É a Ave Maria, de Schubert. É a minha primeira e única canção de embalar.”

Cinquenta palavras para chuva / Asha Lemmie. Lisboa: 20 | 20 Editora, 2021.

domingo, 19 de junho de 2022

Estante de leitura – Bom dia, Tristeza

«A este sentimento desconhecido, cujo tédio, cuja brandura me obsidiam, hesito em aplicar o nome, o belo e o grave nome de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta, que quase me envergonha, quando a tristeza sempre me pareceu honrosa. A ela, não conhecia, experimentava apenas o tédio, o arrependimento, mais raramente o remorso. Hoje, algo me envolve como seda, irritante e suave, isolando-me dos outros. (…)

E o tom de voz era tão convincente, tão meigo, que compreendi que ele poderia sentir-se infeliz. Pela noite dentro falámos do amor, das suas desventuras. Estas, aos olhos do meu pai, eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de gravidade, de compromisso. Explicava-me que eram arbitrárias, estéreis. Vindas de outra pessoa, tais afirmações ter-me-iam chocado. Mas eu sabia que no seu caso estavam presentes a ternura e a dedicação, sentimentos que manuseava tanto mais facilmente quanto os sabia, os queria provisórios. Esta conceção seduzia-me: amores breves, violentos e passageiros. Na minha idade, a fidelidade não cativava. Conhecia pouco do amor: encontros, beijos e desinteresse..” (…)
No dia seguinte de manhã, fui acordada por um raio de sol oblíquo e quente, que veio inundar a cama e pôr fim aos sonhos estranhos e um pouco confusos com que me debatia. Sonolenta, tentei afastar do rosto, com a mão, o calor insistente, mas acabei por desistir. Eram dez horas. Desci ao terraço, em pijama. Sentei-me tranquilamente num degrau da escada, com uma chávena de café e uma laranja e o sumo adocicado esguichava-me para a garganta, bebia um gole de café a escaldar e alternava este gesto com a frescura do fruto. O sol matinal aquecia-me o cabelo, desfazia as marcas que os lençóis me tinham deixado na pele. Já na praia avistei, no fundo do mar, uma linda rocha, cor-de-rosa e azul. Mergulhei, para a retirar, e guardei-a na palma da mão até ao almoço, muito lisa e gasta. Decidi que me daria felicidade, que a não abandonaria durante o Verão. Não sei porque a não perdi, já que perco tudo. Ainda hoje a tenho na mão, rosada e tépida. Sinto vontade de chorar. (…)
– Sim, custa-me muito – respondi [trocar a menina do pinhal pela de uma boa aluna]:
Disse – tão baixinho que eles não ouviram, ou não quiseram ouvir. No dia seguinte de manhã, dei comigo diante de uma frase de Bergson: precisei de alguns minutos para a compreender.: “Mesmo tendo em conta a heterogeneidade que possamos encontrar à partida entre os factos e a causa e embora não haja nenhuma regra de conduta para uma afirmação sobre o fundo das coisas, é sempre num contacto com o princípio gerador da espécie humana que sentimos crescer a força de amar a humanidade.” – Liberdade de pensar, de pensar mal e de pensar pouco, liberdade de escolher a minha própria vida, de me escolher a mim mesma. Não posso dizer “ser eu mesma”, pois mais não era do que uma pasta de moldar, mas apenas recusar os moldes.(…)
Só de madrugada, deitada na cama, ouvindo o ruído dos automóveis de Paris, a memória me trai, por vezes: revejo o Verão e todas as suas recordações. Anne, Anne! Repito esse nome, baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.”

Bom Dia, Tristeza / Françoise Sagan. Lisboa: Casa dos Ceifeiros: 2017

sábado, 4 de junho de 2022

Estante de leitura – Gente Independente

"Um pequeno riacho que nunca seca corre pelo curral abaixo, atrás do relvado, em semicírculo, límpido e frio. No Verão, os raios solares brincam na sua corrente alegre, e a ovelha está deitada mastigando nas margens com uma das patas dianteiras estendida em direção ao relvado. Em  momentos como este o céu fica azul. Então, brilhantes raios de sol cintilam no lago dos cisnes e no rio das trutas que corre serenamente pelo prado, e o brejo e o prado emitem uma alegria contínua e silenciosa.
O vale está rodeado por espinhaços e charnecas. No lado ocidental existe um estreito espinhaço, e a quinta que lhe fica mais próxima é Útiraudsmýri ou Mýri, a residência oficial do governador, a quem tem pertencido até agora este vale pantanoso. Mais adiante estendem-se terrenos vastos e povoados. Pela charneca ocidental, onde está talhado um caminho que vai dar à vila situada no fiorde, estima-se que a jornada dum bando de cavalos com carga levará cinco horas. A sul erguem-se do vale charnecas baixas e onduladas que se vão elevando até que as Montanhas Azuis encerram o horizonte, e é como se as montanhas de fundissem com o céu numa elevada iluminação, onde raramente a neve desaparece antes do solstício de Verão. E o que existe para além das Montanhas Azuis? A paisagem desértica do país.
E as brisas primaveris sopram pelo vale.
E quando as brisas primaveris sopram pelo vale, quando o sol da Primavera brilha na relva amarela das margens do rio, e no lago, e nos dos dois cisnes brancos deste lago, e incita a erva a brotar dos solos húmidos, quem havia de acreditar que este sereno vale verdejante englobasse a história das nossas vidas passadas e dos seus espectros? Pessoas andam a cavalo por ambas as margens do rio, onde durante séculos cavalos de tempos passados pisaram caminhos num terreno extenso, e com o sol a brilhar a brisa fresca da Primavera sopra pelo vale adentro. Nestes dias o sol é mais forte que o passado.
A nova geração esquece os fantasmas que possam ter atormentado os antepassados. (…)
Da montanha corria o riacho, que pertencia à quinta, em linha recta para o curral, depois virava para leste num semicírculo pelo monte, para poder seguir o seu percurso até ao prado. Havia duas quedas de água à altura dos joelhos e dois poços com a mesma profundidade. No fundo havia pedregulhos, seixos e areia. O riacho corria em várias curvas. Cada curva tinha um tom específico, mas em nenhuma havia um tom sombrio; era um riacho alegre e amante da música como a juventude, com várias cordas tocava os seus acordes sem se preocupar com audiências, e despreocupado mesmo se ninguém o tivesse ouvido durante cem anos, como o verdadeiro poeta. (…) o homem estava apenas repleto do espírito da modernidade e decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que ali se instalaram antes dele. (…)
Esses homens não tinham espírito de subserviência e não se viam como parte dum grupo. Viviam por sua própria conta, a independência era a sua mais-valia, eram homens de empreendimento individual e citavam as sagas e as rimas caso estivessem a beber aguardente. Eram homens de combate, perseverantes, que não tinham medo de enfrentar quaisquer adversidades físicas, nem mesmo a de passar fome com as suas famílias durante as derradeiras semanas de Inverno. Mas também não eram homens materialistas, desprovidos de espiritualidade, tinham Deus nas suas barrigas; antes sabiam de cor muitos versos livres e alguns exigiam invulgar habilidade para serem recitados, uns e outros até conseguiam improvisar quadras que falavam dos vizinhos, ou das dificuldades pessoais, ou dos perigos da vida, da natureza, ou da esperança de que melhores dias viriam no céu, e, sim, até sobre o amor. Bjartur fazia parte desses poetas."

                                  Halldór Laxness. (2013). Gente Independente. Lisboa: Cavalo de Ferro. 

sábado, 28 de maio de 2022

Estante de leitura – Uma semana nos rios Concord e Merrimack

“«Há uma voz interior, que no rio
Diz o que lhe vai na alma ao ouvido atento,
E corre com uma disposição tranquila,
Com o a sabedoria, acolhida pelo seu próprio respeito.
No seu seio repousa límpidos todos estes belos pensamentos,
Recebe as árvores verdes e airosas,
E as rochas cinzentas sorriem nos seus braços pacíficos.»

E o poema continuava, mas num tom demasiado sério para este livro. Para cada carvalho, e mesmo para cada bétula que se eleva no cume da colina, bem como para estes ulmeiros e salgueiros, sabíamos que existia uma árvores ideal, etérea e airosa, que cresce para baixo, e por vezes a natureza, quando a maré sobe, coloca o seu espelho a seus pés e torna-a visível. O silêncio era profundo e quase intencional, como se fosse um domingo natural, e gostávamos de imaginar que a manhã era o entardecer de um dia celestial. O ar era tão elástico e cristalino que tinha o mesmo efeito sobre a paisagem do que uma lente numa imagem: dar-lhe uma distância e uma perfeição ideais. a paisagem estava banhada numa luz suave e pacífica, em que os bosques e as vedações a reconfiguravam e a dividiam dando-lhe uma nova regularidade, e os campos acidentados estendiam-se a perder de vista com o aspeto liso de um relvado, enquanto as nuvens, pitorescas e recortadas com nitidez, pareciam um cortinado suspenso sobre um país encantado. Era como se o mundo estivesse enfeitado para qualquer festividade ou cerimónia, com fitas de seda a esvoaçar ao vento, e o trajeto das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho verdejante num labirinto rural, na estação em que as árvores de fruto estão em flor.
Por que razão a nossa vida e o cenário em que se desenrola não hão - de ser tão belos e nítidos? (…)
Embora as sombras das colinas começassem a invadir o rio, todo o vale ondulava com uma luz suave, mais pura e mais memorável do que ao meio-dia. Com efeito, é assim que o dia se despede mesmo nos vales isolados e desabitados. Duas garças-azuis-grandes, com as suas patas longas e esguias realçadas contra o céu, passaram alto sobre as nossas cabeças – o seu voo imponente e silencioso, ao crepúsculo, não parecia destinado a levá-las a pousar em qualquer pântano à superfície da Terra, mas, porventura, no outro lado da atmosfera, um símbolo para as gerações estudarem, quer esteja impresso no céu ou gravado entre os hieróglifos do Egito. Determinadas a atingir um prado a norte, mantinham o seu voo regular e majestoso, como as cegonhas nas ilustrações, até desaparecerem por trás das nuvens. Densos bandos de melros seguiam ao longo do curso do rio, como que numa curta peregrinação de final do dia a um dos seus santuários ou para celebrar aquele magnífico pôr-do-sol. Este supunha que todos os homens não tinham nada que fazer e eram de temperamento contemplativo.”

Uma semana nos rios Concord e Merrimack / Henry David Thoreau. Lisboa: Antígona, 2018.